Por Machado de Assis (1864)
No momento em que Julião entrava por uma porta, entrava por outra um indivíduo mal conceituado no lugar, e até conhecido por assalariado nato de todas as violências. Era o vulto que Julião vira no terreiro. E outros haviam ainda, que apareceram a um sinal dado pelo primeiro, mal Julião entrou no lugar em que se dava o triste conflito da inocência com a perversidade.
Julião teve tempo de arrancar Elisa dos braços de Carlos. Cego de raiva, travou de uma cadeira e ia atirar-lha, quando os capangas entrados a este tempo, o detiveram. Carlos voltara a si da surpresa que lhe causara a presença de Julião. Recobrando o sangue frio, cravou os olhos odiendos no desventurado pai, e disse-lhe com voz sumida:
—Hás de pagar-me!
Depois, voltando-se para os ajudantes das suas façanhas, bradou:
—Amarrem-no!
Em cinco minutos foi obedecido. Julião não podia lutar contra cinco.
Carlos e quatro capangas saíram. Ficou um de vigia. Uma chuva de lágrimas rebentou dos olhos de Elisa. Doía-lhe na alma ver seu pai atado daquele modo. Não era já o perigo a que escapara o que a comovia; era não poder abraçar seu pai livre e feliz. E por que estaria atado? Que intentava Carlos fazer? Matá-lo? Estas lúgubres e aterradoras idéias passaram rapidamente pela cabeça de Elisa. Entre lágrimas comunicou-as a Julião.
Este, calmo, frio, impávido, tranqüilizou o espírito de sua filha, dizendo-lhe que Carlos poderia ser tudo, menos um assassino.
Seguiram-se alguns minutos de angustiosa espera. Julião olhava para sua filha e parecia refletir. Depois de algum tempo, disse:
—Elisa, tens realmente a tua desonra por uma grande desgraça?
—Oh! meu pai! exclamou ela.
—Responde: se te faltasse a pureza que recebeste do céu, considerar-te-ias a mais infeliz de todas as mulheres?
—Sim, sim, meu pai!
Julião calou-se.
Elisa chorou ainda. Depois voltou-se para a sentinela deixada por Carlos e quis implorar lhe misericórdia. Foi atalhada por Julião.
—Não peças nada, disse este. Só há um protetor para os infelizes: é Deus. Há outro depois dele; mas esse está longe. . . Ó Pai de todos, que filho te deu o Senhor!...
Elisa voltou para junto de seu pai.
—Chega-te para mais perto, disse este.
Elisa obedeceu.
Julião tinha os braços atados, mas podia mover, ainda que pouco, as mãos. Procurou afagar Elisa, tocando-lhe as faces e beijando-lhe a cabeça. Ela inclinou-se e escondeu o rosto no peito de seu pai.
A sentinela não dava fé do que se passava. Depois de alguns minutos do abraço de Elisa e Julião, ouviu-se um grito agudíssimo. A sentinela correu aos dous. Elisa caíra completamente, banhada em sangue. Julião tinha procurado a custo apoderar-se de uma faca de caça deixada por Carlos sobre uma cadeira. Apenas o conseguiu, cravou-a no peito de Elisa. Quando a sentinela correu para ele, não teve tempo de evitar o segundo golpe, com que Julião tornou mais profunda e mortal a primeira ferida. Elisa rolou no chão nas últimas convulsões.
—Assassino! clamou a sentinela.
—Salvador!... salvei minha filha da desonra!
—Meu pai!... murmurava a pobre pequena expirando.
Julião, voltando-se para o cadáver, disse, derramando duas lágrimas, duas só, mas duas lavas rebentadas do vulcão de sua alma:
— Dize a Deus, minha filha, que te mandei mais cedo para junto dele para salvar-te da desonra.
Depois fechou os olhos e esperou.
Não tardou que entrasse Carlos, acompanhado de uma autoridade policial e vários soldados.
Saindo da casa de Julião, teve a idéia danada de ir declarar à autoridade que o velho lavrador tentara contra a vida dele, razão por que teve de lutar, o conseguira deixá-lo amarrado.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Virginius: narrativa de um advogado. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jul./ago. 1864.