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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

No emtanto, todo este trabalho um pouco incoherente, tumultuario, em que se sente o borbulnar do talento, das idéas, a força productiva em todo o seu vigor, era levado parallelamente com a revisão da segunda edição do Grime do Padre Amaro e das provas do Primo Bazilio, e o auctor, em 12 de Outubro de 78, confessa com bom humor não poder levar por tantos trabalhos simultaneos : a Mas que havemos de fazer com A Capital? Eu tenho o manuscripto prompto c até ultima linha, mas preciso revel-o com minuciosidade a —e se revelo o Padre Amaro nao posso occupar-me da Caa pitai. Eu não sou um homem como Cesar, para escrever duas cartas — ou dois livros —a um tempo. Parece-me pois que o melhor, o mais prudente, o mais habil, será fazer a toda a força sobre o Padre Amaro, e deixar A Capital para o tim do anno. necessarfo núo fatigar o publico com os meus livros. Se lhe atirarmos tres ao mesmo tempo, eu per. co, come escriptor, a grande qualidade da novidade e da raria da". Um auctor que escreve muito é como uma mulher bo nita que se mostra por toda a parte : o publico termina por nao se impressionar t Temos agora O Primo Bazado. Bem. Depois d'uma pausa, para os fins de Novembro, lançamos o Pa&e Amaro. Fazemos entSo outra pausa, maior, como quando se quer produzir uma sensação e atiramos-lhe com A Capital. Núo lhe parece Isto mais razoavel ? As fo lhas da Capaal impressas, podem ficar por algum tempo armazenadas, esperando.

Como vemos, A Capital começara a imprimir-se, e meu Pae pensa em a por de lado para acabar o Padre Amaro. é todavia abandonada completamente, porque, no mez seguinte, a de Novembro, meu Pae escreve a Ernesto Chardron : . Em quanto ás provas da Gapttal. é outro caso, Eu mesmo ao revêr as primeiras provas direi se quero ou ndo c segundas, e espero poder quasi sempre dispensar as segun das. A pressa que V. Ex.a tem — e que eu agora tenho tama bem não é todavia tão urgente que me leve a arriscar os a meus creditos pela apresentação d'um trabalho incorrecto. V. Ex.a sabe como é o meu estylo : não sendo revisto com escrupulo, é trapalhada.

Esta apreciação do seu proprio estylo não deixa de ser inesperada. Essa trapalhada parece-me que existe exclusivamente na letra, que, oom effeito, é por vezes bieroglifica. Todas estes manuscriptos me passaram pela mão : decifrei-os, li-os, copiei-os, apresento-os hoje ao publico, textualmente, com pouco mais do que uma leve revisão de pontos e virgulast alguma repetição eliminada, um ou outro córte, aqui e além, e fiquei com a impressão de ser uma trapalhada singularmente limpida.

Entretanto, talvez por exigencia do editor, A Capital continuava a imprimir-se e mou Pae revia-lhe as provas, juntamente com as do Padre Amaro e as do Primo Bazilio ; e é no meio d'esta complexidade de assumptos e de trabalhosa que surge subitamente a idéa d'um novo livro que, infelizmente, supponho nunca ter sido escripto c A Batalha do Gaia.

Encontro este livro mencionado na seguinte carta de 23 de Dezembro de 78: Rogo que me mandem as folhas impressas do Amaro e Capital: sem elaas é-me quasi impossivel fazer a a revisão do restante. Aguardo com impaciencia, de Lisboa, uma resposta sobre A Batalha do Caia . . . . . . . . . . . . . .

Todo o meu empenho é desembaraçar-me do Amaro e da Capdtal o mais depressa possivel, e se a cousa se resolver bem, dedicar-me à Batalha. Isso é que é livro l»

Possuo sobre esta Batalha do Caia, um curioso documento : o plano inicial do livro. Devia ser um extraordinario romance de grande alcance pafriotico, em que Portugal, invadido, vencido, batido: ia encontrar nas humilhações da derrota e da occupaqáo estrangeira, o renascimento da fé e das energias perdidas, que um dia provocariam o nosso resurgimento nacional. Não foi porém de todo inutil a idéa d'este grande livro, porque d'ella nasceu mais tarde um conto estranho, por vezes quasi prophetico, A Catastrophe. É-me impossivel datar o conto, simples folheto escripto a lapis, sem menção de data e mesmo de titulo. Pela letra, porém, e pela similitude do papel, inclino-me a que fosse escripto pela mesma epocha do Conde d'Abranhos, que nos apparece agora, à falta da Batalha do Caia!

Este Conde d'Abranhos, que assim nos surge inesperadamente, é um curioso original. totalmente escripto — poderia dizer rabiscado —a lapis, e que dá a impressão de ter sido composto d'um folego, em meia duzia de dias. Em 8 de Junho de 79, meu Pae escreve ao editor, de Dinan (COtes du-Nord) : Vou fazer-lhe uma surpreza : responda-me pela volta do correio se póde, ou quer, publicar immediatamente um livro meu de 200 a '250 paginas. Isto não impede que se continue com o Amaro, vivamente, e com A Capitai, mais devagar. Mas o livro a que me refiro é para já : julgo que a deve produzir uma certa sensaçáo.



(continua...)

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