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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Por vezes a sua companheira queria ajudá-lo nestas tarefas piedosas. Ele não consentia, num receio constante que se fatigasse, viesse mal àquele corpo precioso, que a seu pesar, por vezes, imaginava escolhido por Deus, e que contemplava então com pasmo como um relicário numa capela. Era sempre para ela a malga maior, a fatia mais larga de pão, no desejo de a sentir forte, comunicando força ao seu filho. Procurava por toda a floresta mel silvestre, para misturar ao vinho que ela bebia aquecido à lareira; e como a moleira do moinho senhorial, junto ao rio, assistia na hora dolorosa a todas as servas da castelania, o pobre mateiro não cessava de a servir, de lhe levar sacos de pinha, de lhe rachar a lenha,e mesmo arregaçando as mangas da estamenha, pretendia limpar as rodas da azenha. A boa comadre, cruzando os braços sobre o avental enfarinhado, dava os seus conselhos; e já por ordem dela, o bom mateiro todas as noites, com uma longa vara, batia as ramas do arvoredo que abrigava a sua cabana, para que não viesse nelas pousar alguma coruja, que, piando de noite, faria nascer a criança medrosa e com os olhos tortos. Mas o seu maior cuidado era queimar na lareira galhos de azinho, para que o leite da mãe fosse abundante e forte.

O Inverno no entanto viera, tormentoso e negro: e nos longos crepúsculos, sentados na tripeça, ao lume da lareira, estes dois servos simples pensavam somente no seu filho. Ele contava, recontava na memória as peças de ouro poupadas naqueles longos anos e enterradas debaixo da arca, e noutras ainda que pouparia, para pagar o padre-mestre que ensinasse ao seu filho as letras e o latim... Por que não? Quantos filhos de servo tinham cantado missa nova! E a seu pesar, aterrado sob o orgulho incorrigível, via o seu filho com uma mitra cravejada de ouro, em vestes recamadas de ouro, atravessar sob um pálio os caminhos da aldeia, juncados de rosas e de ervadoce. A mãe, essa, calada, movendo o seu fuso, só via o seu filho pequenino, muito gordo, com a face cheia, lisa, e corada como uma manhã, rindo sobre o seu colo.

Uma noite, que ela assim pensava, adormeceu, fatigada de ter lidado, já pesada, todo aquele dia de Abril, quente e longo. E quase imediatamente se viu sentada, no adro da capela, na aldeia, um domingo de festa, no primeiro dia de Maio: em volta as raparigas dançavam, ao som da rabeca que tocava um menestrel; os moços mais fortes lutavam sobre a relva; um servo do castelo vendia vinho de uma grande pipa enfeitada de louro; e um cavaleiro, todo armado, segurava um cavalo de grandes crinas, tão bravo que ninguém o podia montar... E eis que, de repente, o seu filho aparece com um gibão de pano azul, um capuz escarlate como o filho de um mercador, e logo derruba na luta os mais fortes, amansa o corcel indomável, faz empalidecer de amor todas as raparigas só com volver os olhos radiantes, e, tomando a rabeca do menestrel, começa tão divinamente a tanger, que todos os pássaros saíam das ramarias, e vinham maravilhados, pousar nos seus ombros largos. Ela tremia, num infinito orgulho. E em roda todos, erguendo os barretes, gritavam:

— Eis o mais belo, o mais destro, o mais forte! Seja ele o Rei de Maio!

Acordou ao clamor triunfal. O seu homem areava o seu machado. E quando ela, ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo, porque os sonhos são como tapeçarias que os anjos desenrolam e em que estão bordados, em cores claras, os destinos que hão de ser.

Ambos acordavam de manhã, a um grande canto de pássaros tão alegre e

ruidoso como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas. Mas a mulher do lenhador não se podia erguer, num cansaço que a tornava mais pálida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu ao seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e hábil, porque chegava a sua hora de glória e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher começou logo a sua oração a Santa Margarida.



(continua...)

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