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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Parou - ondeou o braço magro, como a correia dum látego, num gesto que açoitava o Rossio, a Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o segredo desta borracheira sinistra? É que, dos Portugueses, os piores desprezavam a Pátria - e os melhores ignoravam a Pátria. O remédio?... Revelar Portugal, vulgarizar Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam - ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de James, hem? E que todos o adotem - ao menos como se adotou o sabão do Congo, hem? E conhecido, adotado, que todos o amem enfim, nos seus heróis, nos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para esse fim, o maior a empreender neste apagado século da nossa História, fundava ele os Anais. Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que outrora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso de o refazer... Como? Reatando a tradição, caramba!

Assim, vocês! Por essa história de Portugal fora, vocês são uma enfiada de Ramires de toda a beleza. Mesmo o desembargador, o que comeu numa ceia de Natal dois leitões!... E apenas uma barriga. Mas que barriga! Há nela uma pujança heróica que prova raça, a raça mais forte do que promete a força humana, como diz Camões. Dois leitões, caramba! Até enternece!... E os outros Ramires, o de Silves, o de Aljubarrota, os de Arsila, os da Índia! E os cinco valentes, de quem você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem, ressuscitar estes varões, e mostrar neles a alma façanhuda, o querer sublime que nada verga, é uma soberba lição aos novos... Tonifica, caramba! Pela consciência que renova de termos sido tão grandes sacode este chocho consentimento nosso em permanecermos pequenos! É o que eu chamo reatar a tradição... E depois feito por você próprio, Ramires, que chic! Caramba, que chic! É um Fidalgo, o maior Fidalgo de Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Pátria, abre simplesmente, sem sair do seu solar, os arquivos da sua Casa, velha de mais de mil anos. É de rachar!... E você não precisa fazer um grosso romance... Nem um romance muito desenvolvido está na índole militante da revista. Basta um conto, de vinte ou trinta páginas... Está claro, os Anais por ora não podem pagar. Também, você não precisa! E que diabo! não se trata de pecúnia, mas duma grande renovação social... E depois, menino, a literatura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gonçalo em Coimbra, ultimamente, freqüentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim em folhetim, se chega a S. Bento! A pena agora, como a espada outrora, edifica reinos... Pense você nisto! E adeus! que ainda hoje tenho de copiar, para letra cristã, este estudo do Henriques sobre Ceilão... Você não conhece o Henriques?... Não conhece. Ninguém conhece. Pois quando na Europa, nessas grandes Academias da Europa, há uma dúvida sobre a História ou a Literatura cingalesa, gritam para cá, para o Henriques!

Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo - e Gonçalo ainda o avistou, na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o braço esguio de Apóstolo diante dum sujeito obeso, de vasto colete branco, que recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso charuto e da doce noite de maio.

O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando a idéia do Patriota. Tudo nela o seduzia - e lhe convinha: a sua colaboração numa revista considerável, de setenta páginas, em companhia de Escritores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros, até Conselheiros de Estado: a antigüidade da sua raça, mais antiga que o Reino, popularizada por uma história de heróica beleza, em que com tanto fulgor ressaltavam a bravura e a soberba de alma dos Ramires; e enfim a seriedade acadêmica do seu espírito, o seu nobre gosto pelas investigações eruditas, aparecendo no momento em que tentava a carreira do Parlamento e da Política!... E o trabalho, a composição moral dos vetustos Ramires, a ressurreição arqueológica do viver Afonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa forte - não o assustavam... Não! porque felizmente já possuía a "sua obra" - e cortada em bom pano, alinhavada com linha hábil. Seu tio Duarte, irmão de sua mãe (uma senhora de Guimarães, da Casa das Balsas), nos seus anos de ociosidade e imaginação, de 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu Alvará de Delegado, fora poeta - e publicara no Bardo, semanário de Guimarães, um Poemeto em verso solto, o Castelo de Santa Irenéia, que assinara com duas iniciais D. B. Esse castelo era o seu, o Paço antiquíssimo de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romântico garbo, um lance de altivez feudal em que se sublimara Tructesindo Ramires, Alferes-Mor de Sancho I, durante as contendas de Afonso II e das senhoras Infantas. Esse volume do Bardo, encadernado em marroquim, com o brasão dos Ramires, o açor negro em campo escarlate, ficara no Arquivo da Casa como um trecho da Crônica heróica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno Gonçalo recitara, ensinados pela mamã, os primeiros versos do Poema, dê tão harmoniosa melancolia:

Na palidez da tarde, entre a folhagem Que o outono amarelece...

(continua...)

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