Por Camilo Castelo Branco (1889)
— “Henriqueta…”
Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas a fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe daquele encarnado do pudo ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho à conversação íntima daquelas supostas amigas, não o pôde ser à agitação febril de sua filha.
— “Que tens, Elisa ?!” - perguntou ele sobressaltado.
— “Nada, meu pai… Foi um ligeiro incomodo… Estou quase boa…” — “Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa…” — “Antes para casa” — respondeu Elisa.
— “Eu vou mandar buscar a sege” — disse o visconde ; e retirou-se.
— “Não vás, Elisa…” - disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexorável.— “Não vás… Porque, se vais, contarei a todo o mundo uma história que só tu hás-de-saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro : não temas a menor imprudência.”
— “Não me martirizes !” — disse Elisa. — “Eu sou infeliz de mais, para ser flagelada com a tua vingança… Tu és Henriqueta, não és ?”
— “Que te importa a ti saber quem eu sou ?!…”
— “Importa muito… Sei que és desgraçada !… Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.”
O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do teatro. Elisa satisfez a carinhosa ansiedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.
— “Onde julgavas tu que eu existia ? No cemitério, não é assim ?” - perguntou Henriqueta.
— “Não : sabia que vivias, e profetizava que devia encontrar-te… Que história me queres tu contar ?… A tua ? Essa já eu sei… Imagino-a… Tens sido muito infeliz… Olha, Henriqueta… Deixa-me dar-te esse tratamento afetuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo estigma de infortúnio…” — “O mesmo… Não !…” — atalhou Henriqueta.
— “O mesmo, sim, o mesmo… E se me forças a contradizer-te, direi que
invejo a tua sorte, seja ela qual for…”
Elisa chorava, e Henriqueta emudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho desta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazê-las amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A beleza impõe-se à compaixão. Elisa era bela, e Carlos era de uma sensibilidade extremosa. A máscara poderia ser, mas a outra era um anjo de simpatia e formosura. O espírito gosta do mistério que esconde o belo ; mas decide-se pela beleza real, sem mistério.
Henriqueta, depois de alguns minutos de silêncio, durante os quais não era possível avaliar-lhe o coração pela exterioridade da fisionomia, exclamou com ímpeto, como se despertasse de um sonho, daqueles íntimos sonhos de dor, em que a alma se reconcentra :
— “Teu marido ?”
— “Está em Londres.”
— “Há quanto tempo o não visite ?”
— “Há dois anos.”
— “Abandonou-te ?” — “Abandonou-me.”
— “E tu ?… Abandonaste-o ?”
— “Não concebo a pergunta…”
— “Ainda o amas ?”
— “Ainda…”
— “Com paixão ?”
— “Com delírio…”
— “Escreves-lhe ?”
— “Não me responde… Despreza-me, e chama-me Laura.”
— “Elisa !” — disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com entusiasmo nervoso — “Elisa ! Perdôo-te… És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome… Sou Henriqueta ! Adeus.”
Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado daquele prólogo de um romance. Henriqueta tomo-lhe o braço com precipitação, e saiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tratos por adivinhar o segredo daquela conversa.
— “Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta ; mas não me atraiçoes, se queres a minha amizade.”
— “Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és ? Podes chamar-te Júlia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais… Tudo mistérios ! Tens-me, há mais de uma hora, num estado de tortura ! Eu não sirvo para estas emboscadas… Diz-me quem é aquela mulher…”
— “Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado ?”
— “Não a conhecia…”
— “Então que mais queres que eu te diga ?”
— “Muitas outras coisas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquela Laura, que se chama Elisa. Fala-me do marido daquela mulher…”
— “Eu te digo… O marido daquela mulher chama-se Vasco de Seabra.. Estás
satisfeito ?”
— “Não… Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquela Laura?”
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.