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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Era a terceira uma dama quarentona, que freqüentava a casa em que eu me hospedara. Tinha ela um mano, muito mal-encarado e vestido marcialmente, como capitão da carta, que era. A Sra. D. Catarina bailava gentilmente, conversava com todos os pespontos de tagarela muito lida em Eugenio Sue e conhecia todos os atalhos que conduzem à posse dum coração noviço. Declarou-se comigo e eu, urbanamente, acudi ao seu pejo, confessando que já me tinha primeiro confessado com a eloqüência do silêncio. Trocamos algumas cartas, e numa das suas me disse ela que era proprietária de bens de raiz, que valiam seis contos de réis, e tinha, afora isso, uns dez burrinhos em Cacilhas, que anualmente lhe rendiam cento e cinqüenta mil réis. Cuidou que me seduzia com o suplemento dos burrinhos! Respeito muito os burros, mas tanto não! Não respondi a este artigo. Falei-lhe do meu coração, assunto sublime de mais para ser conspurcado no cadastro dos lucros provenientes do dote quadrúpede de D. Catarina.

Uma noite, foi-me concedido ir falar-lhe debaixo das janelas. Morava ela muito longe, em rua de raros moradores, numa casa de um só andar. Tinha eu de costume ir a cavalo até à entrada da rua, e ali me ficava esperando o criado. Foi a minha salvação uma noite! O capitão da carta ergueu-se desconfiado e entrou de espada em punho no quarto da irmã subitamente.

Era em agosto: estava aberta a janela, e nós, sem invocarmos Klopstock, como os amorosos de Goethe, mirávamos as duas ursas, se eram as ursas umas grandes estrelas que Catarina chamava suas, e das quais fazia favor de me dar uma.

Cortado este doce colóquio pelo bruto de gládio nu, saltei da janela à rua, e o ferocíssimo capitão saltou nas minhas costas, tendo-lhe eu apenas a vantagem de três passos em honrosa fuga. O homem tinha desnocado um pé no salto e perdera a esperança de me degolar. Gritou: “Agarra”, e a tempo que eu cavalgava, deixando o criado em risco de ser preso e no maior risco de me denunciar.

No dia seguinte, escreveu-me Catarina apelando para o meu cavalheirismo. Dava-se como perdida no conceito do mundo e do irmão se eu não me desse pressa em casar com ela. Respondi com sinceridade que era muito novo para tomar um estado a que não estava de modo nenhum obrigado o meu cavalheirismo. Aquele dizer “de modo nenhum” feriu tão dentro a susceptibilidade da dama, que, em vez de réplica escrita, veio ela mesma pedir-me explicações com furial aspecto e trejeitos de energúmena. Tomei-lhe medo; mas nem assim casei. Quem tinha resistido à sedução dos burrinhos não sucumbia às ameaças da espada ferina do irmão, a qual, a meu ver, podia disputar virgindade às vestais romanas. Catarina é que, já dez anos antes de me ver, não podia competir em recato e pureza com a espada fraterna. Eu disse-lhe isto em linguagem oriental, e ela respondeu-me em termos que depunham inexoráveis contra a inocência de costumes que a colérica senhora alegava.

Acabou isto assim. O bravo oficial portou-se bem comigo, daí em diante. A senhora caiu em si e viu que não tinha razão. Deixou-me.

Cinco anos depois, pedi em Lisboa notícias da Sra. D. Catarina, e soube que ela estava no Pará com seu irmão, senhores de alguns centenares de contos, herdados de um tio. Esperavam-se então na corte, visto que D. Catarina mandara comprar um palácio arruinado em Benfica e apressar a reedificação com a máxima opulência de arquitetura. Perguntei pelos burrinhos de Cacilhas, e o maganão a quem fiz a pergunta disse-me que procurasse uns no Ministério e outros no Parlamento. Era um destes Voltaires do Chiado que fazem espírito, mesmo à custa dos seus parentes e amigos.

III

Ninguém me há de acreditar a história da quarta mulher. Quer creiam, quer não, ela ai vai com pouca arte, a ver se a sua mesma desnudez a faz menos incrível.

Fui um dia de agosto a Porto Brandão, onde estava a banhos um meu amigo. Numa quinta para lá da encosta houve uma reunião de famílias de Lisboa, à qual fui convidado. O meu amigo apresentou-me a um cavalheiro, que me tomou o braço e me apresentou a algumas senhoras, todas galantes, palreiras e doutoras em Paulo de Kock.

Pedi miúdos esclarecimentos acerca de todas, e particularmente da mais bonita e modesta. O cavalheiro de todas disse mal, mal, porém, que eu indultei cordialmente, defeitos que são enfeites, vícios que alindam as formosas e denigrem as feias. O crime de todas era a casquilhice, que o leitor pode, se quiser, traduzir para coquetterie. Amavam toda a gente, segundo o informador. Fiquei satisfeito, cuidando que o amarem elas toda a gente era boa probabilidade para eu ser amado. Eu não queria mais nada.

Languiram em doce ternura meus olhos, fitos na mais amável das quatro. Algumas vezes nossas vistas se encontraram, e disseram profundos mistérios da alma. Fugi outras vezes da sala e fui a uma varanda, donde se ouvia o bramido do oceano, casar as melodias do meu amor com as dissonâncias formidolosas do estrugir das ondas. A lua prateava-me a testa, em que o sangue, aquecido no coração, subia em arquejos daquela poesia, que não sai em rimas, e enlouquece, se a paixão a não desafoga em suspiros. Aquilo é que era!

(continua...)

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