Por Camilo Castelo Branco (1883)
Bernardo caminhou para o cárcere, com a fronte altiva, com nobreza de passo, com serenidade de consciência e maneira dum príncipe, segundo a linguagem popular dos que o viram.
- X -
Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no andamento desta causa crime. Erguia-se todos os dias, sôfrego de escrever uma sentença de fôrca.
Os depoimentos eram todos contrários ao infeliz. Um só homem protegeu êsse prêso; sabia-se que era um ancião que lhe levava umas sopas diàriamente, e palavras consoladoras de esperança sem esperança.
Eulália, sabendo êstes acontecimentos até à véspera do dia em que o escudeiro, devia ser condenado, requereu que queria ser ouvida em juízo. Não lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da eloqüência do martírio, entrou um dia no côro, quando a comunidade orava, e invocou o testemunho de Jesus Cristo, exclamando, de modo que a escutasse o povo que estava na igreja:
- Declaro que êsse infeliz homem que vai morrer, depois de martirizado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu desprezei, declaro diante de Deus e dos homens, que êsse infeliz nunca me disse uma palavra só para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui que o fiz desgraçado, mas em recompensa hei-de amá-lo tôda a minha vida, e heide unir-me a êle na presença de Deus! - Era uma demência!
Foi grande o assombro dos que a ouviram. O eco dêste grito chegou aos ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fôra cerrada pela mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que não devia de ser enforcado o escudeiro.
Pobre povo, naqueles dias, se tentasse tirar das mãos dum juiz o seu instrumento inauferível, o carrasco!
- XI -
Bernardo foi condenado à pena última. Ergueu-se uma fôrca nas proximidades do delito entre a casa do
juiz e a de Francisco de Lucena.
Eulália exaltara-se no martírio até causar receios de loucura. Inspiravam-se de uma dor de morte as exclamações pungentes que soltava a cada ruído que ouvia semelhante ao arranco retraído dum justiçado. O espetáculo da fôrca era a sua idéia fixa desde o momento que uma religiosa imprudente lhe anunciou o destino de Bernardo da Silva.
A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu da cela com os cabelos em desordem, com as faces chamejantes de febre, com os olhos embriagados de delito, e com o coração a estalar-lhe de uma dor que a endoidecia.
Chegando à portaria não houve fôrças humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao impulso duma fraca mulher, forte da sua desesperação; e esta virgem, com hábitos de noviça, e bela, na sua agonia, como um corpo epiléptico que se levanta amortalhado do esquife, corria por entre as multidões que principiavam a aglomerar-se para testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço dum padecente entre as mãos do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos reunidos pelo sangue do mesmo Cristo.
Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o seu nome, mas aquela pomba, ferida de morte, era um cadáver que se movia impelido pelo choque da pilha galvânica.
Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direção da infeliz, a quem chamavam douda; mas não ousou alguém embargar o passo àquela mulher que parecia fascinar com a majestade da sua demência.
Os que a seguiam esperavam vê-la entrar em casa de seu pai. Enganaram-se, Eulália subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no salão onde fôra lavrada a sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.
Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquela alvejar de uma larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
Deu-se um profundo silêncio de alguns minutos.
Eulália já não podia coordenar as idéias que poucos dias antes clamara no côro. O sorriso da loucura, o gemido sufocante, uma lágrima embebida logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas inteligíveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimável durante alguns minutos.
A mulher e três filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao tribunal, e quiseram arrastá-la dali. Era impossível. A estátua parecia chumbada sôbre o seu túmulo.
A família do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução. Falavam do justiçado com certa náusea, que elas supuseram ser o bálsamo para a ferida mortal de Eulália. Paulo Botelho, coadjuvando as razões da sua família, cobria de impropérios afrontosos o homem que, pouco depois, havia de perdoar as injúrias com a cabeça no laço da fôrca.
A exaltação aflitiva de Eulália tinha tocado o ponto culminante da morte, ou da alienação irremediável.
- Inocente! Inocente! - eram os gritos únicos, as derradeiras palavras que os lábios daquela mulher tinham
de proferir.
- XII -
Nesta momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite, pai de João Leite.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Uma praga rogada nas escadarias da forca. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1782 . Acesso em: 28 jun. 2026.