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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira dos seus ilícitos amores uma octogenária, que tinha quatro irmãos velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas e cinco sobrinhos velhos, todos mais ou menos glutões que ela e alguns muito mais ociosos e patifes. D. Elvira ocorreu por algum tempo às precisões de toda esta tribo de imorais, em obséquio à interventora indispensável. Uma vez, D. Elvira orçou as despesas anuais desta pecaminosa obrigação, e pasmou do seu desperdício. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas, porque o descobrirem-se daria rasto à suspeita. Na terra havia dois jornais, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua presumida rival D. Benedita por mais de uma vez tinha sido abençoada pelas gazetas, em nome do género humano, em virtude ter mandado aos presos os sobejos de um jantar dado no dia natalício do marido, a quem ela estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente da virtude que os jornais lhe deram.

D. Elvira, despeitada, um dia que o marido entrara de ouvir o tocante sermão de um missionário acerca de caridade, comoveu-se, o pregou também sobre a mesma virtude teologal. O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lágrimas a proposta da.9 fundação de um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as economias da esposa.

Discutido o programa, escolhido o edifício, orçadas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia às gazetas. No dia seguinte, ambos os jornais da terra retiraram os seus artigos de fundo para darem a circunstanciada notícia do caritativo instituto da virtuosíssima Srª D. Elvira. Ambos os periódicos, à compita, lhe deram estes regalados e maviosos nomes: pomba de beneficência; anjo da caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; mãe dos pobres; bálsamo dos aflitos; esteio da decrepidez; lâmpada do Evangelho!

Lâmpada não gostou ela que lhe chamassem, porque já a sua rival D. Benedita costumava, não sabemos bem porquê, chamar-lhe lampadário; seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabeça, os quais brilhavam e cintilavam à maneira de lustre. Seria isso, mas D. Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfação, e com grande faina, em menos de três semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo da sua caridade. O asilo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias depois o número estava preenchido.

E vai depois D. Benedita, ciosa da popularidade que a sua rival vingara, combina-se com o marido, e delineia um outro asilo com capacidade para quarenta e oito velhos.

Os jornais que tinham gasto com a outra senhora os adjectivos, substantivos e pronomes, empregaram em honra de D. Benedita as interjeições. O artigo de um começava por Ah!, o artigo do outro jornal por Oh! Fundou-se o asilo de Benedita. Como na terra não havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta anos, inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadeias, apresentaram certidão de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantice sob as asas caritativas de D. Benedita, a quem as gazetas chamavam a santa!

Aconteceu que passados quatro anos D. Elvira mudasse de residência para outro mundo, onde os necrologistas disseram que ela ia receber a palma do triunfo. A caridadedo viúvo esfriou, e veio a um acordo com o marido da santa. Transformaram-se num os dois asilos, já abundantes de esmolas de outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humaníssimo estabelecimento a um grau de prosperidade que não deixa nada a desejar, segundo asseveram as gazetas da terra.

Agora queira o meu leitor curvar-se um pouquinho, e contemplar a raiz desta árvore evangélica, que braceja tão ridentes frondes e tantos frutos de benção! Veja que herpes, que podridão, que bicharia lá vai!

E com este episódio respondi à sua pergunta; e peço perdão de ter ultrapassado as cinqüenta linhas prometidas.

II

Sinceramente, não sei corrigir-me do vicio das divagações. Há quem defenda e demonstre que o romance filosófico deve ser assim alinhavado a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stäel, etc. Na Alemanha então dizem-me que as novelas são tratados de metafísica. Se as minhas derramadas e extraviadas divagações fossem ao menos metafísica! Ser eu, sem dar tino de mim, um escritor subtil, imperceptível, impertinente, medonho e, acima de tudo, sério! Escritor sério! quando se agarra a fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar pregão da nossa seriedade de escritor, a glória vai procurar os nossos livros sérios às estantes dos livreiros, e lá se fica a conversar delicias com as brochuras imóveis, enquanto a traça não dá neles e nela.

O universo, e a humanidade principalmente, ganha muito com os romances sérios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou seis volumes de novelas de costumes morais a ponto de toda a gente dizer que não havia tais costumes em Portugal. Recebeu muito abraço de umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos filhos a obediência aos pais, aos próximos o mútuo amor e à humanidade o temor de Deus. As seis novelas eram glosas aos dez mandamentos.

Esperava-se a regeneração das velhas virtudes portuguesas, logo que o espírito público se balsamificasse da unção dos seis livros. Volvidos porém uns dois anos, as estatísticas iam delatando em aumento a criminalidade pública. Espanto no meu amigo autor e desanimação melancólica nos editores! Não obstante, a gente grave continuava a dizer que o meu amigo, continuando a escrever por aquele teor e jeito, endireitaria o mundo.

(continua...)

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