Por Machado de Assis (1872)
Noutra ocasião, foi surpreendê-la a ler um livro.
— Que livro será esse? perguntou ele sorrindo.
— Veja, respondeu ela apresentando-lhe o livro.
Era uma história de Catarina de Médicis.
Isto seria insignificante para outro; para o nosso candidato era um vestígio preciosíssimo. Com os apontamentos que tinha, já Andrade podia conhecer a situação; mas, como era prudente, buscou esclarecê-la melhor.
Um dia mandou uma cartinha a James Hope, concebida nestes termos: Empurraram me alguns bilhetes de teatro: é um espetáculo em benefício de um homem pobre. Sei como o senhor é caridoso, e por isso aí lhe remeto um camarote. A peça é excelente.
A peça era o Pedro.
No dia aprazado, lá estava Andrade no Ginásio. Hope não faltou, com a família, ao espetáculo anunciado.
Nunca Andrade sentira tanto a beleza de Sara. Estava esplêndida, mas o que aumentava a beleza e o que lhe inspirava adoração maior, era o concerto de louvores que ele ouvira à roda de si. Se todos gostavam dela, não era natural que ela só lhe pertencesse a ele? Pela razão de beleza, como por causa das observações que Andrade queria fazer, não tirou os olhos da moça durante a noite inteira.
Foi ao camarote dela no fim do segundo ato.
— Venha, disse-lhe Hope, deixe-me agradecer-lhe a ocasião que me proporcionou de ver Sara entusiasmada.
— Ah!
— É um excelente drama este Pedro, disse a moça apertando a mão de Andrade.
— Excelente só? perguntou ele.
— Diga-me, perguntou James, este Pedro sobe sempre até ao fim?
— Não o disse ele no primeiro ato? respondeu Andrade. Subir! subir! subir! Quando um homem sente em si uma grande ambição, não pode deixar de realizá-la, porque justamente nesse caso é que se deve aplicar o querer é poder.
— Tem razão, disse Sara.
— Pela minha parte, continuou Andrade, nunca deixei de admirar este caráter soberbo, natural, grandioso, que me parece falar ao que há de mais íntimo em minha alma! Que é a vida sem uma grande ambição?
Este arrojo de vaidade produziu o desejado efeito, eletrizou a moça, a cujos olhos parecia que Andrade se havia transfigurado.
Bem o percebeu Andrade, que coroava assim os seus esforços.
Adivinhara tudo.
Tudo o quê?
Adivinhara que Miss Hope era ambiciosa.
V
Eram duas pessoas diferentes até àquele dia; daí a pouco, pareciam entender-se, harmonizar-se, completar-se.
Tendo compreendido e sondado a situação, Andrade não deixou de prosseguir no ataque em regra. Sabia para onde iam as simpatias da moça; foi com elas, e tão cauteloso, e ao mesmo tempo tão audaz, que inspirou ao espírito de Sara pouco disfarçável entusiasmo. Entusiasmo, digo, e era esse o sentimento que devia inspirar quem pretendesse o coração de Miss Hope.
Amor é bom para as almas angélicas.
Sara não era assim; a ambição não se contenta com flores e horizontes curtos. Não pelo amor, mas pelo entusiasmo, é que ela devia ser vencida.
Sara via Andrade com olhos de admiração. Ele soubera, a pouco e pouco, convencê-la de que era um homem essencialmente ambicioso, confiado na sua estrela, e seguro dos seus destinos.
Que mais queria a moça?
Ela era efetivamente ambiciosa e sedenta de honras e eminências. Se tivesse nascido nas imediações de um trono, poria esse trono em perigo.
Para que ela amasse alguém, era necessário que esse pudesse competir com ela no gênio, e lhe afiançasse a vinda de glórias futuras.
Andrade compreendera isso.
E tão hábil se houve que conseguira fascinar a moça.
Hábil, digo eu, e nada mais; porque, se houve jamais criatura desambiciosa neste mundo, espírito mais tímido, gênio menos desejoso de mando e poderio, esse foi sem dúvida o nosso Andrade.
A paz era para ele o ideal.
E a ambição não existe sem perpétua guerra.
Como conciliar, pois, este gênio natural com as esperanças que inspirara à ambiciosa Sara?
Deixava ao futuro?
Desenganá-la-ia, quando fosse conveniente?
A viagem à Europa foi ainda uma vez adiada, porque Andrade, competentemente autorizado pela moça, pediu-a em casamento ao honrado comerciante James Hope.
— Perco ainda uma vez a minha viagem, disse o velho, mas desta vez por um motivo legítimo e agradável; faço minha filha feliz.
— Parece-lhe que eu... murmurou Andrade.
— Ande lá, disse Hope batendo no ombro do futuro genro; minha filha morre pelo senhor. O casamento foi celebrado dentro de um mês. Os noivos foram passar a lua-de-mel na Tijuca. Cinco meses depois, estavam ambos na cidade, ocupando uma casa poética e romanesca em Andaraí.
Até então a vida foi um caminho semeado de flores. Mas o amor não podia tudo numa aliança iniciada pela ambição.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma águia sem asas. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, n. 11, nov. 1872, p. 322-332.