Por Machado de Assis (1872)
Não contando com esta resposta, Alberto empalideceu, e viu bem que era uma espécie de castigo que ela queria dar-lhe por causa da sua intempestiva reflexão. Pareceu-lhe que fora esquisito falar de amor a uma moça a quem via pela primeira vez. Luísa não se arrependeu da pequena lição dada ao pretendente, e pareceu-lhe conveniente conservá-lo na incerteza durante alguns dias, a fim de o castigar ainda mais. Não contava ela porém com o golpe que lhe preparava o alferes Coutinho. Já sabemos que este alferes era íntimo amigo de Nicolau. Várias vezes o filho de Nunes o convidara para ir à casa do pai; mas Coutinho sempre recusara o convite delicadamente, e parece que o fazia justamente para se não aproximar de Luísa.
Como?
É verdade. Na opinião de Coutinho, o amor não vive só de mistério, vive também de distância.
A máxima poderia ser excelente, mas no caso atual não prestava para nada. Coutinho compreendeu isto perfeitamente, e com destreza conseguiu ser convidado nessa noite por Nicolau para lá ir.
De maneira que, no meio de seus devaneios poéticos, ouvindo as narrações que Alberto fazia diante da família encantada com o narrador, Luísa viu assomar à porta a figura do irmão e a do alferes.
Luísa reteve um grito.
Nicolau apresentou o amigo a toda a família, e a conversa um pouco esfriou com a chegada do novo personagem; mas não tardou que continuasse no mesmo tom. Luísa não ousava olhar para um nem para outro. Alberto nada percebeu nos primeiros momentos; mas Coutinho tinha os olhos cravados nela com tanta insistência, que era impossível não ver nele, senão um rival feliz, ao menos um pretendente resoluto.
— Veremos! disse ele consigo.
— Quem vencerá? perguntava a si mesmo o alferes Coutinho olhando a furto para o candidato do Norte.
V
Ao passo que o Nunes e D. Feliciana se davam por felizes julgando bem encaminhadas as coisas, e Chiquinha premeditava trocar o Antonico pelo Alberto, uma luta se tratava no espírito de Luísa.
Uma luta neste caso era já probabilidade de vitória para Alberto, visto que o outro era o namorado antigo, aceito e amado. O coração de Luísa parecia feito para estas situações dúbias em que a vaidade de moça toma as feições do amor, com tanta habilidade que ilude os mais.
Alberto tinha qualidades brilhantes, ainda que não sólidas; mas Coutinho era já o namorado aceito, e sempre deixava saudades.
Demais Alberto era um bom casamento, mas a moça sentia que ele queria dominá-la depois, e já pressentia nele alguns sintomas de vontade imperiosa; ao passo que o alferes, exceto alguns rompantes sem conseqüência, era um verdadeiro paz d’ senhor vem ter comigo, declara que ama D. Luísa e propõe que um de nós ceda o campo ao outro. Claro é que sou eu o condenado a ceder.
— O senhor não me deixou acabar, observou Alberto.
— Acabe.
— Eu não desejo que um de nós se resolva desde já a deixar o campo; o que eu proponho é que cada um de nós procure saber se tem elementos para se fazer eleger noivo da moça de que se trata. Isto só pode saber apresentando cada um de nós o seu ultimatum. Ela escolherá em conformidade do seu coração e o vencido retirar-se-á para as tendas.
Leitor desconfiado, não digas que isto é impossível; eu estou contando um fato autêntico; e posto não esteja isto de acordo com as regras da arte, eu conto o caso, como o caso foi.
Coutinho fez algumas objeções à proposta do rival. Alegou a primeira razão de todas, a singularidade da situação que se ia criar entre ambos a respeito de uma moça, que ambos deviam respeitar.
— Não esqueçamos que ela tem alguma coisa, disse ele, e isto pode parecer um jogo em que o ganho consiste precisamente no dote de D. Luísa.
— Eu também tenho alguma coisa, respondeu Alberto com altivez.
— Bem sei, disse Coutinho, mas eu não tenho nada, e a meu respeito a objeção fica de pé. Espero que me acredite que eu neste negócio não tenho em mim os bens daquele anjo, e que só o coração me arrasta sabe Deus a que drama íntimo! Se Alberto fosse mais penetrante, ou Coutinho menos dissimulado, descobrir-se-ia que este pretexto de Coutinho era mais teatral que verdadeiro. Amava sem dúvida a moça, mas não a amaria talvez se não tivesse nada de seu.
Coutinho expôs ainda outras objeções que a seu ver eram valiosas, mas todas as desfez Alberto com algumas razões suas, e ao cabo de duas horas ficou assentado que os dois campeões mediriam as suas forças e procurariam obter de D. Luísa a resposta decisiva. O preferido comunicaria logo ao outro o resultado da campanha, e o outro abateria as armas.
— Mas que prazo lhe parece melhor? perguntou Alberto.
— Quinze dias, respondeu Coutinho.
Despediram-se.
VIII
O comendador Nunes estava ansioso por falar à filha e resolver a crise por um meio violento; mas Alberto fez com que ele prometesse neutralidade.
— Deixe que eu arranjo tudo, disse o candidato do Norte.
— Mas...
— Fie-se em mim. Disse alguma coisa à senhora D. Feliciana?
— Nada.
— Pois não convém que ela saiba nada.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma loureira. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 10, n. 4, p. 110-128, abr. 1872.