Por Machado de Assis (1873)
— Sinto dizer, minha senhora, que preciso do meu guarda-livros.
— E eu estou às suas ordens, respondeu Clemente rindo, mas um pouco despeitado. No dia seguinte já Carlotinha não pôde ver o rapaz sem corar um pouco, excelente
sintoma para quem prepara uma viúva.
Quando lhe pareceu conveniente, expediu Clemente Soares uma carta flamejante à moça, que lhe não respondeu, mas que também não se zangou.
Neste meio-tempo ocorreu que o comendador terminara alguns negócios que o trouxeram à corte, e teve de partir para a fazenda.
Foi um golpe nos projetos do rapaz.
Poderia ele continuar a entreter aquela esperança que a sua boa estrela lhe deparara? Assentou de dar batalha campal. A moça, que parecia sentir inclinação para ele, não opôs grande resistência e confessou que sentia renascer-lhe a simpatia de outro tempo, acrescentando que se não esqueceria dele.
Clemente Soares era um dos mais perfeitos comediantes que têm escapado ao teatro. Simulou algumas lágrimas, expectorou alguns soluços e despediu-se de Carlotinha como se tivesse por ela a maior paixão deste mundo.
Quanto ao comendador, que era o mais sincero dos três, sentiu separar-se de um cavalheiro tão distinto como Clemente Soares, ofereceu-lhe os seus serviços, e pediu com instância que não deixasse de o ir visitar à fazenda.
Clemente agradeceu e prometeu.
VI
Quis a desgraça de Medeiros que os negócios lhe corressem mal; duas ou três catástrofes comerciais o puseram às portas da morte.
Clemente Soares fez quanto pôde para salvar a casa de que dependia o seu futuro, mas nenhum esforço era possível contra um desastre marcado pelo destino, que é o nome que se dá à tolice dos homens ou ao concurso das circunstâncias.
Achou-se sem emprego nem dinheiro.
Castrioto compreendeu a situação precária do rapaz pelo cumprimento que este lhe fez nesse tempo, justamente porque Castrioto, tendo sido julgada casual a sua falência, alcançara proteção e meios para continuar o negócio.
No pior da sua posição, recebeu Clemente uma carta em que o comendador o convidava a ir passar algum tempo na fazenda.
Sabedor da catástrofe de Medeiros, queria o comendador naturalmente dar a mão ao rapaz. Este não esperou que repetisse o convite. Escreveu logo dizendo que daí a um mês se poria em marcha.
Efetivamente um mês depois saía Clemente Soares em caminho do município de ***, onde era a fazenda do comendador Brito.
O comendador esperava-o ansioso. E não menos ansiosa estava a moça, não sei se porque já lhe tivesse amor, se porque ele fosse uma distração no meio da monótona vida rural.
Recebido como amigo, tratou Clemente Soares de pagar a hospitalidade, fazendo-se conviva alegre e divertido.
Ninguém o poderia melhor do que ele.
Dotado de grande perspicácia, compreendeu em poucos dias como entendia o comendador a vida do campo, e tratou de o lisonjear por todos os modos. Infelizmente, dez dias depois da sua chegada à fazenda, adoeceu gravemente o comendador Brito, por maneira que o médico poucas esperanças deu à família. Era ver o zelo com que Clemente Soares servia de enfermeiro do doente, procurando por todos os meios suavizar-lhe os males. Passava noites em claro, ia aos povoados quando era necessário fazer alguma coisa mais importante, consolava o doente já com palavras de esperanças, já com animada conversa, cujo fim era distraí-lo de pensamentos lúgubres.
— Ah! dizia o pobre velho, que pena que eu o não conhecesse há mais tempo! Bem vejo que é um verdadeiro amigo.
— Não me elogie, comendador, dizia Clemente Soares, não me elogie, que é tirar o mérito, se o há, destes deveres agradáveis ao meu coração.
O procedimento de Clemente influiu no ânimo de Carlotinha, que nesse desafio de solicitude soube mostrar-se esposa dedicada e reconhecida. Ao mesmo tempo fez com que em seu coração se desenvolvesse o germe de afeto que Clemente de novo lhe lançara.
Carlotinha era uma moça frívola; mas a doença do marido, a perspectiva da viuvez, o desvelo do rapaz, tudo fez nela uma profunda revolução.
E mais que tudo, a delicadeza de Clemente Soares, que, durante esse tempo de tão graves preocupações para ela, nenhuma palavra de amor lhe dirigiu. Era impossível que o comendador escapasse à morte.
Na véspera desse fatal dia, chamou os dois a si, e disse com voz fraca e comovida:
— Tu, Carlota, pela afeição e respeito que me tiveste durante a nossa vida de casados; tu, Clemente, pela verdadeira dedicação de amigo, que me tens provado, sois ambos as duas únicas criaturas de quem levo saudades deste mundo, e a quem devo gratidão nesta e na outra vida...
Um soluço de Clemente Soares cortou a palavra ao moribundo.
— Não chores, meu amigo, disse o comendador com voz terna, a morte na minha idade, não é só inevitável, é também necessária.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um homem superior. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1873.