Por Machado de Assis (1893)
— Estás certa que nenhum interesse o atrai?
— Seguramente.
— Pois aceita.
Raquel respondeu enfim, com duas linhas apenas, que pareceram a Tomás muito mais compridas que a longa carta que lhe escrevera: “. Tomás foi agradecer-lhe a resposta. Estava trêmulo, como se contasse vinte anos, e fosse aquele o primeiro amor. A própria Raquel, uma vez decidida, tinha a comoção da adolescência. Pouco mediou entre a aceitação e a realização. Dois meses depois estavam casados.
V
Após um quarto de século, voltara Tomás ao ponto de onde partira. Tendo navegado mares longos e enfadonhos, ei-lo que aporta à mesma terra vizinha, cujo acesso fora o sonho dos primeiros anos.
— Raquel, vinte e cinco anos de separação e desesperança, disse ele na carruagem que o trazia da igreja.
A lua-de-mel foi passada em Petrópolis, longe do universo porque eles acharam uma casa separada do centro, e não saíram dela uns três dias. O plano do marido era não sair nunca; uma tarde, porém, transpondo o jardim, chegaram à rua, depois à outra rua. No dia seguinte, foram à Rua do Imperador; antes do fim da semana seguiram em carro ao alto da serra, a ver chegar o trem.
Não se pense que lhes foi indiferente a vista de coisas estranhas. Ao contrário, acharam certo prazer em mostrar aos outros a própria felicidade, Raquel ainda mais que o marido. Duas semanas depois de subidos a Petrópolis, recebeu Tomás uma carta de Oliveira. Era longa, banal, mas amiga; acabava perguntando quando esperavam descer do céu.
— Podemos ir amanhã, propôs a mulher.
— Já!
— Se você quiser; eu estou bem.
Tomás refletiu um instante.
— Sim, podemos ir amanhã ou depois.
A eternidade ficou reduzida de alguns séculos de séculos; mas, como todas as
eternidades deste mundo são assim, a questão é saber em que proporção se reduzem. Ora, eles tiveram duas semanas de lua-de-mel; havia-as muito menores. Três, quatro, cinco meses passaram, sem acontecimento apreciável. Mas há uma falta de acontecimentos, que o estado moral supre, e um homem e uma mulher podem viver mais que Alexandre ou César. Tal não era o estado do casal recente. Ao cabo de três meses, Tomás sentia em Raquel uma placidez de espírito, que não era o alvoroço que esperava, nem ainda o dos primeiros dias. Esse mesmo dos dias iniciais não correspondeu à esperança, mas confundia-se com o dele, e ambos lhe pareceram no mesmo grau infinito. Pouco a pouco, o estado normal vingou; ao fim de seis semanas, a diferença apareceu, até que, dobrado o prazo, Raquel ficou sendo uma senhora tranqüila, sem assomos de nenhuma espécie, sem inquietações nem saudades. Tudo o que pode definir bem a ausência de paixão parecia reunir-se nela. Quando a convicção desse estado entrou no ânimo do marido, houve uma tal ou qual sombra no céu conjugal. O pior é que ela não deu pelo fenômeno. Tomás encerrava-se longas horas no gabinete, a pretexto de trabalho, mas realmente para ler romances parisienses, comprados às dúzias. Raquel não iria arrancá-lo ao suposto trabalho, nem ralhava pelo excesso de esforço que devia atribuir-lhe. Um dia, quando muito, perguntou-lhe o que estava fazendo.
— Estou compondo um livro, disse ele, um estudo, uma obra política.
— Você quer ser deputado?
— Não.
E depois de um instante, sorrindo:
— Você gostaria de ouvir os meus discursos na câmara?
— Naturalmente.
Há mil modos de dizer naturalmente; Raquel escolheu um que não significava a co participação da glória, e não o fez por afligi-lo, mas por não saber de outro. Tomás, que de começo, lia os romances com pouca atenção, acabou lendo-os por gosto e voltando assim a uma das suas diversões antigas. As longas reclusões eram menos aborrecidas que dantes. Outras vezes demorava-se fora, ia a reuniões, ao teatro, a jantares, sem que Raquel achasse que dizer uma palavra amarga. Também não o recebia triste nem alegre. Uma ou outra vez bocejava este gracejo:
— Sim, senhor, bela vida para um homem casado.
— Eu te explico...
Tomás explicava-se, mas era difícil saber se ela escutava a explicação. Não tinha nos olhos sequer uma sombra de desconfiança. Nem ciúmes, nem despeito, nem nada. Ao fim de seis meses Raquel foi a um baile. Havia anos que não pisava em nenhum, e já depois de casada, recusara ir a dois. Aceitara aquele. Não teve a folgança de outro tempo, mas achou alguma coisa que podia trazê-la. Daí a aceitação do segundo em que dançou, e de mais dois. O marido, fez-se sócio do Cassino Fluminense, a pedido dela.
— Com uma condição, disse Raquel; é que uma quadrilha será nossa.
— Justo.
Assim fizeram nos dois primeiros bailes; no terceiro, já não dançaram juntos.
— Raquel casou comigo, sem entusiasmo, pensava ele; foi como quem aceita um vestido novo. Não digo novo, mas bonito, talhado à moda...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um quarto de século. A Estação, Rio de Janeiro, 15 ago. 1893.