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#Contos#Literatura Brasileira

Um dia de entrudo

Por Machado de Assis (1874)

Realmente, Batista podia dar-lhe uma ou duas jaquetas; mas como era muito econômico, entreteve o moleque na esperança e esse foi o seu mal.

Carlos ficou espantado com a notícia.

— Será verdade? perguntou ele a Benjamim.

— É nhonhô, insistiu o moleque, ele quer casar com sinhá-moça Teresa, mas é um sovina...

— Virá ele hoje?

— Parece que vem.

Idéia infernal surdiu no espírito de Carlos. Era esperar o Romeu dos quintais e pregar-lhe nova peça.

— Um banho! disse o moleque quando Carlos consultava o irmão.

— Sim, um banho! disse Benjamim.

— Não, disse Carlos, coisa melhor; pensemos nisso.

Enquanto os dois estavam em conciliábulo, as raparigas foram deitar-se. Dormiam no mesmo quarto Lucinda e Teresa.

— Estou muito zangada com o Benjamim, disse Lucinda; não gostei que fizesse aquilo no teu... noivo.

— Cala a boca! não fales alto! Não foi ele só, foi o Carlos, que é sempre o autor destas idéias.

— Amanhã hei de passar uma sarabanda nos dois.

— Não digas nada, é melhor.

— Por quê?

— Porque...

— Vais casar, bem sei.

Teresa sorriu.

— Depende de mim, disse ela.

— Titia já te perguntou alguma coisa?

— Nada.

— Mas há de falar...

— Amanhã, talvez.

— Sim, amanhã...

— Que é isto?

— Isto o quê?

— Não ouviste um grito?

— Não; é uma coruja; estás medrosa.

— Pareceu-me.

As duas sentaram-se na cama.

— Que é que tu hás de dizer quando titia te perguntar se queres casar com o Batistinha?

— Velhaca! disse Teresa sorrindo.

— Por quê, meu Deus?

— Quero saber também o que hás de dizer quando...

— Quando o quê?

— Quando tua mãe te perguntar se queres casar com Benjamim...

— Ora, qual!... Mas vamos lá, dize...

— Eu responderei que é de meu gosto.

— Só isso?

— Pois então?

— Mas isso só não é bonito; é preciso dizer: Com toda a minha alma!

— Deixemos disso; é romântico demais.

Desta vez ouviu-se um sussurro no quintal. As duas chegaram à janela mas não viram ninguém.

— Não é nada, disse Lucinda.

Entraram outra vez e continuaram a conversar. No fim de dez minutos ouviu-se um assobio.

Teresa estremeceu.

— É ele!

Lucinda começou a despir-se.

— Pois então, disse ela, vai conversar enquanto eu me deito.

Teresa chegou à janela e agitou um lenço branco; Batista, que já vinha pulando o último quintal, saltou à terra, aproximou-se do poço e começou a conversar debaixo com a namorada.

— Por que veio hoje? perguntou Teresa.

— Acha que fiz mal? disse Batista.

— Deve estar cansado.

— De quê?

Teresa quis aludir ao banho mas receou envergonhar o rapaz. Por isso, sem responder à pergunta continuou:

— Mamãe ainda me não falou.

— Quando falará?

— Talvez amanhã.

— Que pretende dizer?

— Ora! que sim! diga-me outra vez; está certo de que foi bem recebido por ela?

— Perfeitamente; vi que ela compreendeu o meu amor; e como não, se é essa alma digna, essa alma celeste, toda cheia dos perfumes do paraíso?

Esta rajada lírica produziu um riso sufocado, que Batista atribuiu a Teresa, e esta a Lucinda. Mas Lucinda já dormia nessa ocasião.

— Riu-se de mim? perguntou Batista.

— Que pergunta!

— Parece...

— Ah! não insulte aquela que vai ser sua esposa.

— Insultá-la? jamais... Não; eu daria o meu sangue para vingar aquele que a insultasse... Mas diga-me, Teresa, você está contente casando comigo?

— Oh! muito feliz!

— Eu também! Havemos de ter uma bela vida!

— Eu espero.

— Contanto que nos não visitem indiscretos, ah! principalmente seus irmãos. Que par de pelintras!

— Deixe-os.

— Oh! se os deixo! São dois pelintras sem iguais. Não compreendem que a dignidade da vida humana é respeitar os outros, porque o homem é feito à imagem de Deus, e quem insulta um homem e o desconceitua, ofende a Deus. Não acha, D. Teresa?

— Parece que sim; disse a moça já um pouco aborrecida com o ar tétrico que o namorado ia dando à conversa.

— Mas eu perdôo a esses rapazes; só o que desejo é que me não visitem...

— Será o que você quiser...

— Teresa, você me ama?

— Muito.

— Para sempre?

— Para sempre. E você?

— Oh! eu! pergunta ao mar se ama a praia; ao zéfiro se ama a flor; à abelha se ama... Não acabou a frase. Um esguicho anônimo lhe inundou a cara. Batista deu um pulo.

— Que é? perguntou a moça.

— Não sei... respondeu ele suspeitando estar descoberto.

— Mas que foi?

(continua...)

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