Por Machado de Assis (1877)
Vê o leitor que estamos longe do dia em que Seixas, cansado de esperar o almoço, resolvera ir comê-lo na eternidade. Agora era um comerciante apatacado e conceituado. Tinha família. Quando ele pensava nisso sentia um tremor nervoso como de quem recorda o terremoto de que escapou; mas ao mesmo tempo comprazia-se em recordar que de baixo subira tanto. Um só ponto negro havia: era José Marques, que (na opinião de Seixas) se constituíra seu eterno perseguidor. Seixas rememorava a cena do Passeio Público, até a chegada de José Marques; logo que José Marques entrava, ele desviava dali o pensamento como de um crime. Agora não podia vê-lo; padecia só com encará-lo. José Marques, entretanto, era-lhe cada vez mais afeiçoado, e fazia-o sentir com franqueza. Nunca lhe pedia favores; exigia-os, e era justo, porque o salvara da morte. Nem por isso Seixas o convidara um dia de anos da filha. Quando José Marques soube disso ficou consternado. Não se deteve; foi dizer-lho. Seixas recorreu ao meio mais vulgar e usado entre todos.
— Não te convidei? disse ele. Admira-me que o digas, porque eu próprio escrevi uma carta... Não importa! Vai lá logo.
— Decerto que vou; mas sempre quis dizer-te...
— Fizeste bem.
— Sim, era realmente de espantar que tu me tratasses por esse modo. Podes ter defeitos; cada um de nós tem os seus; mas ingrato, não! tu não és ingrato.
— Pois!
— Não és. A que horas?
— Vai jantar.
— Vou, vou.
E foi.
Durante o jantar fez uma saúde única, ao dono da casa, felicitando-se pela parte que o seu coração tinha naquela festa de família. Não foi adiante, mas disse o suficiente para fazer empalidecer o pai de Elvira.
Logo que ele se despediu, à meia-noite, Seixas disse à mulher:
— É o homem mais aborrecido que tenho visto em minha vida!
— Por quê? Não me pareceu.
— Não o conheces.
— Parece até amável comigo e com Elvira.
— Isso pode ser; mas sempre te digo que nunca vi nada pior!
José Marques quase não convivia com outras pessoas, além da família Seixas. Era casado; mas só ia à casa jantar e dormir. Alguns meses depois do jantar de anos de Elvira adoeceu-lhe a mulher; Seixas não a foi visitar logo. Sabendo, porém, que a doente estava à morte, não teve remédio senão ir lá uma noite.
— Creio que está perdida, disse José Marques ao amigo.
— Pobre senhora!
— Obrigado, Seixas — disse José Marques com um suspiro. Vejo que és o mesmo amigo de outro tempo. Queria pedir-te uma coisa; tua senhora podia ficar estas últimas noites com minha mulher?
Seixas ficou gelado.
— Eu sei! Ela anda também tão achacada!
— Não parece.
— Anda.
— Mas, enfim, não está de cama. Vou pedir-lhe.
Seixas não teve tempo de exprimir a segunda objeção que já lhe dançava nos lábios. Sua mulher não pôde negar o que lhe pedia José Marques, alegando razoavelmente que não tinha mais pessoa da família.
Seixas foi obrigado a lá deixar a mulher e a filha, e a voltar só para casa.
— Os diabos o levem! exclamava ele descendo as escadas de José Marques. Isto é um suplício! Isto é... um inferno! E tudo porque me fez um dia... o que faria qualquer outro que ali passasse e soubesse da minha posição. O mundo não é um covil de tigres: a filantropia não veio só de encomenda para ele. Já não o posso tolerar. A mulher de José Marques faleceu no fim de três dias. Como essa morte restituía a Seixas a mulher e a filha, pode-se dizer que o antigo sócio de Madureira gastou sem grande pena os doze mil-réis do carro em que foi acompanhar a defunta ao cemitério. Entretanto, a morte da esposa de José Marques veio apertar mais os laços que uniam os dois amigos, porque José Marques, não tendo mais nenhum pretexto para estar em casa algumas vezes, habitava mais a de Seixas que a sua.
Um dia liquidou o negócio, despediu-se da praça, e foi o mais triste dia da vida de Seixas. José Marques não vivia em outra parte: era sempre na loja ou em casa do pai de Elvira. Esta e a mãe achavam-no agradável, e ele fazia o mais que podia para não contrariar essa impressão. Seixas, porém, padecia (dizia ele) as dores cruciantes de um inferno. Não lhe falava horas e horas; às vezes nem olhava para ele. Se ria, e José Marques se aproximava, fechava logo o rosto, com o mesmo ar como se lhe dissesse:
— Meu caro, não me rio para ti; tu aborreces-me; deves tê-lo compreendido; salvo, se és tolo, e o és na verdade.
Nada viu, porém, José Marques. Ele estava tão certo da amizade do outro, que o proclamava em toda a parte:
— O Seixas? é o meu maior amigo; conhecemo-nos há longos anos; sempre o mesmo. Verdade é que de certo tempo em diante deve-me tudo.
— Sim? perguntava o interlocutor, qualquer que fosse.
— Tudo...
— Protegeste-o?
— Mais do que isso!
— Mas... então?...
E se o interlocutor não insistia:
— Aqui em reserva; o Seixas esteve um dia para matar-se.
— Que me diz?
— A pura verdade. Fui eu que o salvei; dando-lhe algum dinheiro e o lugar em casa de Madureira.
— Estou pasmado!
— Mas, também honra lhe seja feita. Nunca se esqueceu de meus benefícios; nunca! Às vezes acontecia, no meio deste diálogo, surgir ao longe a figura de Seixas, a qual, ou desaparecia na primeira esquina, quando era possível fazê-lo, ou apressava o passo ao acercar-se do grupo, de maneira que passasse por ele, sem outra interrupção mais que um cumprimento de chapéu.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.