Por Machado de Assis (1994)
CAMÕES, CAMINHA
CAM. (entrando). Discreteáveis com alguém, ao que parece...
CAMÕES É verdade.
CAM. Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco com alguns fidalgos. Sois o bem-amado, entre os últimos de Coimbra.
— Com que, discreteáveis... Com alguma dama?
CAMÕES Com uma dama.
CAM. Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza, cuido que continuará, e ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os bons costumes italianos. E vós, Senhor Camões, por que não ides à Itália?
CAMÕES Irei a Itália, mas passando por África.
CAM. Ah! ah! para lá deixar primeiro um braço, uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos versos; isto vos digo que poupeis...
CAMÕES Uma palavra, Senhor Pedro de Andrade, uma só palavra, mas sincera.
CAM. Dizei.
CAMÕES Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.
CAM. Ide à Itália, Senhor Camões, ide à Itália.
CAMÕES. Não resistireis muito tempo ao que vos mando.
CAM. Ou à África, se o quereis... ou a Babilônia... A Babilônia é melhor; levai a harpa ao desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:
Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.
Ide a Babilônia, senhor Perdigão!
CAMÕES (pegando-lhe no pulso). Por vida minha, calai-vos!
CAM. Vede o lugar em que estais.
CAMÕES (solta-o). Vejo; vejo também quem sois; só não vejo o que odiais em mim.
CAM. Nada.
CAMÕES Nada?
CAM. Cousa nenhuma.
CAMÕES Mentis pela gorja, senhor camareiro.
CAM. Minto? Vede lá; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti dizeis vós? — Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.
CAMÕES Um aviso?
CAM. Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.
CAMÕES Não serão, mas eu as farei caladas.
CAM. Pode ser. Essa dama era...
CAMÕES Não reparei bem.
CAM. Fizestes mal; é prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá estão os nossos em Mazagão, cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse braço, com que nos haveis de calar as paredes e os reposteiros. É conselho de amigo.
CAMÕES Por que seríeis meu amigo?
CAM. Não digo que o seja; o conselho é que o é.
CAMÕES Credes, então?...
CAM. Que poupareis uma grande dor e um maior escândalo.
CAMÕES Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é
o meu delito? Em que ordenação, em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se duas criaturas?
CAM. Deixai a corte.
CAMÕES Digo-vos que não!
CAM. Oxalá que não!
CAMÕES (à parte). Este homem... que há neste homem? lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, - Senhor Caminha. (Pára no meio da cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...
CAM. Adeus, Senhor Camões.
(CAMÕES sai).
CENA X
CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE
CAM. Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, decerto, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela deveras?... Que outra podia ser? D. CAT. (espreita e entra). Senhor... senhor!
CAM. Ela!
D. CAT. Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos que não nos façais mal. Sois amigo de meu pai, ele é vosso amigo, não lhe digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que CAMINHA não diz nada.) Então? falai... poderei contar convosco?
CAM. Comigo? (D. CATARINA, inquieta e aflita, pega-lhe na mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo! Para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo digno, porque vós o amais... muito, não?
D. CAT. Muito!
CAM. Muito! Muito, dizeis... E éreis vós que estáveis aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos um do outro, a falarem naturalmente do céu e da terra... ou só do céu, que é a terra dos namorados. Que dizíeis? ...
D. CAT. (baixando os olhos). Senhor...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.