Por Machado de Assis (1884)
— Parece-lhe pouco?
— De maneira que, se ele aqui ficasse, a senhora casava?
— Casava, respondeu Clara olhando distraidamente para os pingentes do lustre. Distração do diabo! Foi o que a perdeu, porque o Matias fez daquela resposta um protocolo. A questão era alcançar que o Severiano ficasse, e não gastou dez minutos nessa outra empresa. Clara, apanhada no laço, fez boa cara, e aceitou o noivo sorrindo. Tratou-o mesmo com tais agrados que ele pensou nas palavras do amigo; acreditou que, em substância, era grandemente amado, e que ela não fizera mais do que ceder aos poucos.
Mas essa terceira razão era tão contrária à realidade como as outras duas; — nem ela o amava, nem lhe tinha ódio, nem amava a outro. A verdade única e verdadeira é que ela era um modelo acabado de inércia moral; e, casou para acabar com a importunação do Matias. Casaria com o diabo, se fosse necessário. Severiano reconheceu isso mesmo com o tempo. Uma vez casada, Clara ficou sendo o que sempre fora, capaz de gastar duas horas numa loja, quatro num canapé, vinte numa cama com o pensamento em coisa nenhuma.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Trina e una. A Estação. Rio de Janeiro, 1884.