Por Machado de Assis (1877)
Os aposentos que lhe deram estavam alfaiados com o estritamente preciso; ainda assim não fosse, ele não repararia em nada. Sua melhor mobília eram os seus quinze anos. Tirou da caixa que trouxera os objetos necessários à arte, os pincéis, as telas, os desenhos; pôs as coisas em ordem, mas de modo que, em caso de entrar um estranho, pudesse esconder tudo. Feito isto, entrou a contemplar mentalmente a sua Vênus inédita; corrigiu um braço, avivou o colorido, dispôs melhor um acessório. A atitude não o satisfazia de todo; melhorou-a, mas reparou que a mudança prejudicava a luz, e voltou à primeira correção. O olhar não lhe parecia assaz expressivo; prometeu trabalhá-lo até alcançar a vida que lhe queria dar. Não é possível dizer com certeza que tempo gastou ele nessa contemplação e emenda, a verdade é que acordou quando o vieram chamar para jantar.
Luís Borges recebeu-o no gabinete, e os dois passaram à sala de jantar onde a mulher do advogado esperava por eles. Seguiu-se uma apresentação galhofeira, um jantar que a Silvestre pareceu de príncipe, muito carinho dos donos da casa, nada menos que a felicidade para o pobre rapaz. Silvestre, entretanto, comeu pouco; o acanhamento e as saudades não eram de desafiar o apetite. Não ousou sequer olhar para a mulher de Luís Borges, que aliás lhe falava com uma voz que devia sair da mais gentil de todas as bocas humanas.
Camila era o nome dessa moça, modelo de graça indolente e nativa elegância. Imaginem uma mulher, não alta, mas airosa, flexível como uma serpente, meiga como uma pomba; pondo-lhe no rosto cor de leite dois olhos pardos e vivos, um nariz reto como os das estátuas gregas, considerai-lhe a fronte lisa e pensativa, as curvas do colo, a perfeição do braço, e tereis a esposa de Luís Borges, e não a tereis toda, porque falta ainda a alma de toda essa figura, a alma que se derramava por toda ela e era uma coisa mais fácil de sentir que de explicar. Parece que lhe falam os próprios dedos — foi a primeira expressão de Luís Borges ao vê-la pela primeira vez, dez anos antes, isto é 1855, quando ela tinha apenas quinze anos e ele trinta. Três meses depois estavam casados. Uma vez casados, extinta a lua de mel, não se extinguiu o amor, que aliás nunca fora violento, senão pacífico, moderado e igual. Mas a conveniência deu lugar a novas descobertas. Camila, dizia um dia o marido, tem um gato no cérebro. Explicava ele deste modo as alternativas de carícia e arreganho da mulher, a indolência das idéias, a irritação fácil e a fácil docilidade.
Informada da história de Silvestre, Camila tratou-o com a mesma simpatia do marido, disposta como ele, a deixar que o gênio do jovem artista se desenvolvesse em plena liberdade. A figura de Silvestre fez ainda aumentar o interesse que sua história despertara nas duas almas sensíveis. Aquela palidez poética, o profundo e rutilante dos olhos, o véu de melancolia com que ele parecia esconder-se às vistas do mundo, mas através do qual se distinguia o traço da vontade e da perseverança, o próprio acanhamento das maneiras, faziam dele uma criatura interessante e original. Não lhe era preciso arrombar a porta dos corações; eles a abririam por si.
Era pois a vida de Silvestre a mais deliciosa coisa do mundo: trabalhava de manhã no escritório; de tarde e antes do almoço pertencia ao estudo; os domingos eram todos seus. Fechava-se para trabalhar à vontade. Mais de uma vez, Luís Borges pediu-lhe para ver os trabalhos; ele recusava-o sempre. Quando cansava, encostava-se à janela e esquecia-se a contemplar o mar e o céu. O ideal fundia-se no infinito; o artista ficava só com a sua criação.
Um dia, voltando do escritório, achou aberta a porta de seu aposento. Junto da janela viu Camila de pé, a contemplar um desenho, uma cabeça de Harpia, copiado de um modelo acadêmico. Antes de saber o que era, Silvestre correu agitado para a moça.
— Não tenha medo, disse esta; eu sou pessoa de segredo. Estava aqui admirando a sua inspiração. É magnífica!
Silvestre estendeu a mão para pegar no desenho.
— Não vale a pena disse ele; são esboços...
— Ciumento!
Camila proferiu esta palavra com tanta graça, que era impossível resistir-lhe; Silvestre esperou que ela acabasse o exame.
— Dá-me este! disse ela.
— Não posso; dar-lhe-ei outro melhor.
— Deixe ver.
— Mais tarde.
— Mentiroso!
Silvestre obteve o desenho e apressou-se a guardá-lo; só então reparou que deixara uma pasta sobre a mesa. Na pasta havia outros estudos; Camila, porém, só chegara a ver aquele. Enquanto ele guardava cioso os frutos de suas horas vagas, a mulher de Luís Borges admirava a fronte rafaelesca de Silvestre; a timidez graciosa de seus movimentos, os olhos plenos de vida espiritual.
— Escondeu tudo? perguntou ela.
— Tudo; tenho vergonha de deixar ver coisas tão grosseiras. Quando eu fizer alguma obra melhor, não terei dúvida em mostrá-la.
— Você pensa que me contento com tão pouco? disse Camila depois de curto silêncio. Silvestre não sabia que dizer.
— Não, continuou ela; há de mostrar-me o que tem feito; quero apreciar os progressos de seu talento; numa palavra, não quero ser público. Deixe ver!
Silvestre tinha todos os seus estudos e preparos dentro de um grande baú, encostado a uma das paredes da sala. A moça caminhara para ele; ele correu a sentar-se no baú.
— Perdoe-me, disse o rapaz, eu lhe mostrarei depois; procurarei alguma coisa que seja digna de seus olhos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.