Por Machado de Assis (1872)
— Estou arrependido, padre Norberto, disse Ruy ajoelhando aos pés do frade. Foi batizado o pequeno e iniciado nos preceitos da fé cristã, ao passo que o pai incumbido de arrebanhar a gentilidade, saiu pelo sertão acompanhado pelo frade Norberto e outro.
Longo tempo andou nessa missão. Colheu a Igreja preciosos frutos dela e quando voltaram todos três para asilo dos frades houve grande e preciosa festa em honra de todos e principalmente de Ruy. Os frades asseveraram à porfia que a piedade do fidalgo fora exemplar e os seus esforços incessantes.
Notaram todos, porém, que se os frades voltaram alquebrados pelas fadigas e perigos, Ruy estava tão sadio e robusto como fora. Maior admiração houve quando o fidalgo confessou ter mais de sessenta anos.
— Não admira, respondeu o fidalgo rindo; eu adquiri o privilégio desta gente que vive geralmente até os cem anos.
Ficou o nosso Ruy no convento acompanhando os frades. Uma noite veio do sertão uma horda de índios, e atacou o asilo monástico com desusado vigor. A defesa foi quase toda nula contra os ferozes índios. Após uma luta porfiada, Ruy conseguiu fazer ouvir a sua voz e acalmar os ânimos. Os índios foram embora deixando dois cadáveres dos seus. Dos frades tinham morrido dois às envenenadas flechas do inimigo. A todos admirou, porém, que Ruy recebesse uma flecha nas costas, que a arrancasse, e não morresse como acontecera aos outros.
— Que mistério é esse irmão? perguntou-lhe um frade.
— Nenhum, respondeu Ruy; provavelmente a flecha não vinha ervada. Correram os anos; os frades estavam substituídos à proporção que iam morrendo; e assim se chegou aos anos de 1730, sem que Ruy perdesse sequer um dos traços de sua vigorosa pessoa.
Toda a gente ficava pasmada diante de semelhante prodígio. Prodígio havia de certo porque de cem anos por cima é impossível não ter já todos os sinais da velhice; porém não... nunca Ruy deixou de ter a mesma cara.
Foi em 1730 que um oficial régio tendo sabido da maravilhosa mocidade de Ruy, ofereceu-se para levá-lo à corte de Lisboa a fim de apresentá-lo ao rei que era então D. João V. Partiram.
III
É
ÉÉEE incrível que nenhuma história publicada daquele tempo mencione a chegada deste prodigioso sujeito à corte de Lisboa e dos casos que aí houve.
Ruy não foi apresentado ao rei, não se sabe bem por que razão; mas andou por toda a parte; figurou nos solares da fidalguia como nas casas dos mesteirais; espantou damas, condes e burgueses; falou de coisas acontecidas um século antes; causou em suma o mesmo assombro que o célebre conde de S. Germano em Paris, ainda que este misterioso personagem não possuísse o dom da imortalidade achado pelo pajé.
Sabido é que às mulheres agrada o misterioso e o raro. Uma D. Beatriz, formosíssima fidalga daquele tempo, veio a enamorar-se do nosso Ruy que também se enamorou dela. Como a moça estivesse para casar com D. Álvaro, marquês de P... saiu este paladino a campo e desafiou Ruy por um combate singular.
Não era homem de recusar duelo o nosso Ruy; aceitou o repto do fidalgo, que o não era mais que ele, e bateram-se à espada nas imediações de Lisboa.
Infelizmente o uso da flecha desabituara o viúvo de Nanavi ao uso da espada. O marquês era esperto jogador desta arma. O combate era desigual. Todavia, não aceitou Ruy o conselho dos que lhe diziam que fizesse um estudo prévio.
Durou o duelo uns vinte minutos de angústia para os padrinhos de Ruy; ao cabo desse tempo, D. Álvaro varou o nosso homem de meio a meio. Correram todos ao ferido que imediatamente caiu no chão lavado em sangue.
— Está morto! exclamaram todos.
— Ainda não, disse Ruy; não estou morto.
E com a própria mão estancou o sangue, enquanto um físico, adrede convidado, lhe administrou os primeiros socorros.
— Morre daqui a duas horas, disse tristemente o cirurgião aos padrinhos de Ruy. Duas horas depois, Ruy aparecia nas ruas de Lisboa, com grande espanto do povo que ouvira falar no duelo e nos resultados dele.
— Sabem que mais? dizia o cirurgião, aquele homem é o diabo.
Naqueles tempos de fé uma descoberta desta ordem equivalia ao exílio perpétuo do homem. Ruy viu fecharem-se-lhe as portas dos palácios, as hospedarias, as casas todas enfim; e compreendeu que estava abandonado.
Ajuntou algum dinheiro que tinha, guardou na algibeira um frasco contendo o resto do elixir de imortalidade, e partiu para Espanha.
Ali deixou de dizer quem era, nem a idade que tinha; viveu desconhecido. Mas não deixou de lhe ser proveitoso e incógnito. Jogou a sorte nas casas em que isso se fazia e ganhou somas fabulosas.
— Que farei agora? perguntava Ruy a si mesmo.
Partiu para a Alemanha e dispôs-se a estudar. Com o dinheiro que tinha ganho nas tavolagens de Castela, pôde o nosso célebre Ruy de Leão ocorrer às despesas do estudo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ruy de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1872.