Por Machado de Assis (1872)
— A mim? disse ele; se toda a humanidade esperar por mim para casar, podemos dar por extinta a raça humana.
— Era justamente o que eu dizia...
— Importa-me pouco o que tu dizias...
— Verás... verás...
Valadares saiu pouco depois e foi direitinho, não para a casa da noiva, mas para a casa de alguém já indicada neste romance.
Hão de ter notado que Valadares em toda a conversa sobre casamento só de passagem aludira à mulher. Contrário a todos os noivos, a futura esposa não lhe merecera cinco minutos de atenção nas suas expansões com um amigo. Nem mais nem menos, tratava se de um desses mercados a que, por cortesia, se chama — casamento de conveniência —, dois vocábulos inimigos que a civilização aliou.
Valadares tinha chegado naquele ponto em que se bifurca a estrada da vida de um estróina: de um lado, o casamento de conveniência, do outro a perdição completa. É difícil naquela situação encontrar uma mulher que se disponha a dar a mão ao estróina; achou a Valadares.
Estas mesmas reflexões fê-las consigo Daniel, apenas se separou do outro, e, fazendo as, comentou-as por modo que eu estenderia muito estas páginas se quisesse desenvolver as suas reflexões.
Não se davam com Daniel as circunstâncias de Valada-rer. Daniel era mais que tudo um homem extremamente pessoal. O casamento impor-lhe-ia uma preocupação que ele não queria ter; quanto aos prazeres do lar doméstico, eram coisa frívola para ele. Quando o velho Marcos, ouvindo dele a notícia de que Valadares ia casar, insinuou ao filho que o exemplo era bom de seguir:
— Pois não fosse! respondeu Daniel, oferecendo um charuto ao pai.
V
O casamento de Valadares produziu grande impressão dans un certain monde, não acreditaram nele à primeira notícia, mas afinal não havia contestação que o boêmio, o estróina, o desalmado Valadares ia tomar estado.
A alguns parecia um sacrilégio, outros acharam que era simplesmente um milagre.
— Com que direito, dizia a Luisinha já citada, com que direito nos arrancam as pérolas do nosso adereço?
Havia um adereço em que Valadares era pérola.
Os rapazes já enraizados no país de Citera, davam o noivo por maluco, posto que, no ânimo de alguns, o casamento era natural à vista dos bens de noiva. Enfim, apesar de mil comentários e algumas apostas, Valadares casou. Foi excelente a reunião em casa do sogro. Lá se achou, como prometera, o misantropo Daniel e mais o pai, que foi um dos padrinhos do casamento.
A noiva de Valadares era uma rapariga bonita, mas extremamente faceira, e apesar da especialidade do dia, em que todas as mulheres se parecem, era fácil adivinhar nela uma casquinha de primeira ordem. Via-se que era uma menina que casara para adquirir a
liberdade de arruar. Caía em boas mãos.
Daniel, segundo o seu costume, não dançava; divertia-se em ver dançar os outros. A família do deputado B... entrou às 10 horas; acompanhava-a Luís, o interpelante oposicionista que já encontramos na Rua do Ouvidor.
Augusta estava radiante; a sua beleza, que reunia magnificamente a graça e a severidade, era dessas que centuplicam com as luzes da sala e perdem com a luz do dia. Quer isto dizer que, se Daniel a achara bonita na Rua do Ouvidor, achou-a divinamente bela no salão dos Seabras.
Quando ela entrou, fez sensação. Todos se curvavam involuntariamente por onde ela passava, semelhante à Vênus clássica, cuja divindade se percebia simplesmente pelo andar. Daniel achava-se encostado a uma porta por onde Augusta entrou na sala da dança. Não se curvou, nem deu sinal de si. Augusta pareceu recordar-se das feições do rapaz, e demorou-se alguns segundos a olhar para ele, mas para logo retirou os olhos, repetindo o mesmo gesto de desdém que tanto impressionara o filho do velho Marcos.
Por que este gesto? — perguntava Daniel a si mesmo. Nunca a tinha visto, nem pretendido. De onde vinha essa espécie de prevenção contra ele? A curiosidade e o amor-próprio do rapaz estavam sofrivelmente aguçados.
Augusta entrou na sala pelo braço do tio; Luís dava o braço a Madalena. Quando Valadares a viu entrar, foi ter com Daniel.
— Tive uma idéia, disse ele ao amigo.
— No dia de hoje, nenhuma idéia pode ser boa.
— Pois é. Casa com Augusta.
A dança interrompeu o diálogo.
Daniel colocou-se de modo que visse Augusta; esta dançava com Valadares. Durante a maior parte da quadrilha, os olhos de Daniel não se encontraram com os de Augusta; mas no fim, por simples acaso, a moça olhou para o rapaz, e sustentou por alguns instantes o olhar dele. Pareciam interrogar um ao outro. Desta vez, foi Daniel o primeiro que afastou os olhos, e retirou-se.
Saiu dali, foi para uma sala intermediária, e ali atirou-se a um divã.
Estava só.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.