Por Machado de Assis (1867)
A conversa continuou animada pelos ditos joviais e de algum modo familiares de Augusto. Teófilo tomava parte na conversação quanto lhe permitia o êxtase em que estava diante da singular beleza de Sílvia.
Sílvia era realmente bela no sentido amplo e elevado da palavra. Vinha à mente a idéia de Cleópatra, era um duplo efeito que o aspecto da moça produzira no espírito e nos sentidos. Quem amasse aquela moça desejaria que, como a Antônio, fosse trasladado para a campa o leito nupcial da vida; ela devia inspirar uma como que voluptuosidade ainda depois da morte.
Devo dizer, em honra de Teófilo, que a impressão produzida no moço não tinha esse caráter. O espírito do poeta só via e sentia o que havia de puro e adorável na mulher. Sílvia era um tanto pálida, não dessa fria palidez de cera que não comove. Tinha a testa arredondada e polida, os olhos negros, profundos, rasgados, desferindo um olhar penetrante; um nariz ligeiramente aquilino, servindo de base a duas sobrancelhas arcadas, bastas e negras; a boca, graciosa e pequena, abria-se em dois lábios demasiadamente rosados, úmidos, voluptuosos; um pescoço perfeitamente contornado ligava a cabeça aos ombros e fazia descer o olhar fascinado para o colo e para as espáduas, nus até onde consentiam a vaidade e o decoro. Sobre aquele colo ideal fulgia uma pequena cruz de brilhantes em completa oscilação pelo arfar do seio. Sílvia vestia com simplicidade e gosto, mas via-se nos maiores enfeites, como nos menores gestos, a consciência da beleza que procurava realçar o que recebeu do céu com o auxílio do que se inventou na terra.
Teófilo não podia desviar os olhos de Sílvia. O espírito do poeta sentia-se tomado de uma ebriedade celeste diante daquela beleza fascinante. Era o filtro mágico do amor que se lhe entornava nos olhos.
Até então o poeta conhecera a beleza pelo que a imaginação lhe figurava. Esta beleza estava ali, diante dele, palpável, visível, deslumbrante.
Sílvia conheceu o efeito que causara em Teófilo, ou antes supôs que ele não podia fugir à lei comum dos outros homens que a cercavam. Fitou um olhar fascinante no poeta, e depois retirou os olhos para dirigir a palavra à dona da casa.
Augusto esperou que a moça acabasse de falar, para interpor uma petição. Era a petição de ser contemplado entre os cavalheiros que deviam merecer a honra de acompanhá-la à dança. Sílvia deu-lhe uma quadrilha. Augusto intercedeu por Teófilo, e Teófilo obteve uma valsa.
Depois os dois moços separaram-se.
— É bela, não? perguntou ao poeta.
— Esplêndida! murmurou este.
Teófilo sentiu-se outro. Parecia-lhe que estava próximo a entrar na estância da felicidade. Era simples: amava. O amor nasceu-lhe de súbito, como acontece quando é verdadeiro. Quando chegou a vez da sua valsa, o nosso poeta estremeceu. Dirigiu-se para a moça. Sentia-se estranhamente comovido, e por duas vezes esteve para recuar e sair. Enfim Sílvia deu com os olhos no poeta, e era impossível escapar.
Sílvia era valsista consumada. Quando Teófilo sentiu palpitar junto a si aquele seio, e respirou o ambiente estranho que cercava aquela singular criatura, o coração palpitou-lhe mais forte; parecia-lhe um sonho. Que valsa foi aquela? Não foi valsa, foi delírio, delírio de poeta, delírio de fantasia escaldada.
Augusto acompanhou o par com os olhos e reparou na mudança que se operava em Teófilo. Quando pôde conversar com este interrogou-o acerca da impressão que lhe causava Sílvia.
— Aposto que estás apaixonado?
Teófilo olhou para ele silenciosamente e respondeu:
— Não!
Augusto insistiu.
— Queres conhecer o pai? É o conselheiro C...
Augusto apresentou Teófilo ao pai de Sílvia. Uma conversa de poucos minutos decidiu as simpatias do conselheiro pelo poeta. Teófilo saíra dos seus hábitos de extrema reserva e mostrou-se tão discreto quanto agradável. O conselheiro ofereceu os seus serviços a Teófilo.
Esta noite fez uma revolução na vida e no espírito de Teófilo. O poeta encontrara o seu ideal. Mas por que foi achá-lo tão alto? Esta pergunta foi feita ao poeta quando se achou a sós no gabinete de trabalho. Só então medira a distância que existia entre ele e Sílvia. Se o amor, a natureza, a lei divina, podiam aproximá-los, o preconceito social e a lei humana separavam-nos.
O poeta dormiu pouco e tarde. Antes, porém, de procurar o leito, traduziu na linguagem das musas as impressões de que estava possuído. Foi uma das suas poesias mais veementes. Era a um tempo um cântico e uma elegia. No cântico dizia como a encontrara e amara a beleza; na elegia chorava o infortúnio de tê-la visto tão elevada e ser impossível subir até ela.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.