Por Machado de Assis (1891)
As visitas continuaram, e o nosso namorado universal parecia fixar-se de vez na pessoa de Alberta, apesar das restrições que ela lhe punha. Em casa desta, notavam a assiduidade de Macedo, e a boa vontade com que ela o recebia, e os que tinham notícia vaga ou positiva do namoro militar, não compreendiam a moça, e concluíam que a ausência era uma espécie de morte — restrita, mas não menos certa. E contudo ela trabalhava para a outra, não digo que com igual esforço nem continuidade; mas em achando modo de elogiá-la, fazia-o com prazer, embora já sem grande paixão. O pior é que não há elogios infinitos, nem perfeições que se não acabem de louvar, quando menos para não vulgarizá-las. Alberta temeu, além disso, a vergonha do papel que lhe poderiam atribuir; refletiu também que, se o Macedo gostasse dela, como entrava a parecer, ouviria o nome da outra com impaciência, senão coisa pior — e calou-o por algum tempo.
— Você ainda continua a trabalhar por mim? perguntou-lhe um dia Finoca. Alberta, um tanto espantada da pergunta (não falavam mais naquilo) respondeu que sim.
— E ele?
— Ele, não sei.
— Esqueceu-me.
— Que se esquecesse não digo, mas você foi tão fria, tão cruel...
— A gente não vê, às vezes, o que lhe convém, e erra. Depois, arrepende-se. Há dias, vi o entrar no mesmo armarinho em que estivemos uma vez, lembra-se? Viu-me, e não fez caso.
— Não fez caso? Então para que entrou lá?
— Não sei.
— Comprou alguma coisa?
— Creio que não... Não comprou, não; foi falar a um dos caixeiros, disse-lhe não sei quê, e saiu.
— Mas está certa que ele reparou em você?
— Perfeitamente.
— O armarinho é escuro.
— Qual escuro! Viu-me, chegou a tirar o chapéu disfarçadamente, como era costume...
— Disfarçadamente?
— Sim, era um gesto que fazia...
— E ainda faz esse gesto?
— Naquele dia fez, mas sem se demorar nada. Antigamente, era capaz de comprar ainda que fosse uma boneca, só para ver-me mais tempo.. Agora... E até já nem passa lá por asa!
— Talvez passe nas horas em que você não está à janela.
— Há dias, em que estou a tarde inteira, não contando os domingos e dias santos. Calou-se, calaram-se. Estavam em casa de Alberta, e ouviram um som de caixa de rufo e marcha de tropa. Que coisa mais adequada que fazer uma alusão ao Miranda e perguntar quando voltaria? Finoca preferiu falar do Macedo, agarrando as mãos à amiga:
— É uma coisa que não posso explicar, mas agora gosto dele; parece-me, não digo que goste de verdade; parece-me...
Alberta cortou-lhe a palavra com um beijo. Não era de Judas, porque sinceramente Alberta quis assim pactuar com a amiga a entrega do noivo e o casamento. Mas quem descontaria aquele beijo, em tais circunstâncias? Verdade é que o tenente estava em S. Paulo, e escrevia; mas, como Alberta perdesse alguns correios e explicasse o fato pela necessidade de não descobrir a correspondência, ele já escrevia menos vezes, menos copioso, menos ardente, coisa que uns justificariam pelas cautelas da situação e pelas obrigações de ofício, outros por um namoro de passagem que ele trazia no bairro da Consolação. Foi, talvez, este nome que levou o namorado de Alberta a freqüentá-lo; achou ali uma menina, cujos olhos, mui parecidos com os da moça ausente, sabiam fitar com igual tenacidade. Olhos que não deixam vestígio; ele recebeu-os e mandou os seus em troca — tudo pela intenção de mirar a outra, que estava longe, e pela idéia de que o nome do bairro não era casual. Um dia escreveu-lhe, ela respondeu; tudo consolações! Justo é dizer que ele suspendeu a correspondência para o Rio de Janeiro — ou para não tirar o caráter consolador da correspondência local, ou para não gastar todo o papel.
Quando Alberta notou que as cartas tinham cessado de todo, sentiu em si indignação contra o vil, e desligou-se da promessa de casar com ele. Casou três meses depois com outro, com o Macedo — aquele Macedo — o idiota Macedo. Pessoas que assistiram ao casamento, dizem que nunca viram noivos mais risonhos nem mais felizes.
Ninguém viu Finoca entre os convidados, o que fez pasmar as amigas comuns. Uma destas observou que Finoca, desde o colégio, fora sempre muito invejosa. Outra disse que estava fazendo muito calor, e era verdade.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Pobre Finoca!. A Estação, Rio de Janeiro, 1891.