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#Comédias#Literatura Brasileira

Os deuses de casaca

Por Machado de Assis (1866)

Dizem que eu era então a imagem de um ministro.

Seria por ser corvo, ou por trazer um queijo?

Foi uma e outra coisa, ouvi dizer.

JÚPITER

O ensejo

Não é de narrações, é de obras. Vou sair.

Sabem a senha e a hora. Adeus.

(sai)

VULCANO

Vou concluir

Um negócio.

MARTE

Um negócio?

VULCANO

É verdade.

MARTE

Mas qual?

VULCANO

Um projeto de ataque.

MARTE

Eu vou contigo.

VULCANO

É igual

O meu projeto ao teu, mas é completo.

MARTE

Bem.

VULCANO

Adeus, adeus.

PROTEU

Eu vou contigo.

(Saem Vulcano e Proteu)

Cena VII

MARTE, APOLO

APOLO

O caso tem

Suas complicações, ó Marte! Não me esfria

A força que me dava o néctar e a ambrosia.

No cimo da fortuna ou no chão da desgraça,

Um deus é sempre um deus. Mas, na hora que passa,

Sinto que o nosso esforço é baldado, e imagino

Que ainda não bateu a hora do destino. Que dizes?

MARTE

Tenho ainda a maior esperança.

Confio em mim, em ti, em vós todos. Alcança

Quem tem força, e vontade, e ânimo robusto.

Espera. Dentro em pouco o templo grande e

[augusto

Se abrirá para nós.

APOLO

Enfim...

MARTE

A divindade

A poucos caberá, e aquela infinidade

De numes desleais há de fundir-se em nós.

APOLO

Oh! que o destino te ouça a animadora voz!

Quanto a mim...

MARTE

Quanto a ti?

APOLO

Vejo ir-se dispersado

Dos poetas o rebanho, o meu rebanho amado!

Já poetas não são, são homens: carne e osso.

Tomaram neste tempo um ar burguês e insosso.

Depois, surgiu agora um inimigo sério,

Um déspota, um tirano, um Lopez, um Tibério:

O álbum! Sabes tu o que é o álbum? Ouve,

E dize-me se, como este, um bárbaro já houve.

Traja couro da Rússia, ou sândalo, ou veludo;

Tem um ar de sossego e de inocência; é mudo.

Se o vires, cuidarás ver um cordeiro manso,

À sombra de uma faia, em plácido remanso.

A faia existe e chega a sorrir...

Estas faias São copadas também, não têm folhas, têm saias.

O poeta estremece e sente uni calafrio;

Mas o álbum lá está, mudo, tranqüilo e frio.

Quer fugir, já não pode: o álbum soberano

Tem sede de poesia, é o minotauro. Insano

Quem buscar combater a triste lei comum!

O álbum há de engolir os poetas um por um.

Ah! meus tempos de Homero!

MARTE

A reforma há de vir

Quando o Olimpo outra vez em nossas mãos cair.

Espera!

Cena VIII

Os mesmos, CUPIDO

CUPIDO

Tio Apolo, é engano de meu pai.

APOLO

Cupido!

MARTE

Tu aqui, meu velhaco?

CUPIDO

Escutai;

Cometeis uma empresa absurda. A humanidade

Já não quer aceitar a vossa divindade.

O bom tempo passou. Tentar vencer hoje, é,

Como agora se diz, remar contra a maré.

Perdeis o tempo.

MARTE

Cala a boca!

CUPIDO

Não! não! não!

Estou disposto a enforcar essa última ilusão.

Sabeis que sou o amor...

APOLO

Foste.

MARTE

És o amor perdido.

CUPIDO

Não, sou ainda o amor, o irmão de Eros, Cupido.

Em vez de conservar domínios ideais,

Soube descer um dia à esfera dos mortais;

Mas o mesmo ainda sou.

MARTE

E depois?

CUPIDO

Ah! não fales,

O meu pai! Posso ainda evocar tantos males,

Encher-te o coração de tanto amor ardente,

Que, sem nada mais ver, irás incontinenti,

Pedir dispensa a Jove, e fazer-te homem.

MARTE

Não!

CUPIDO

(indo ao fundo)

Vês ali? é um carro. E no carro? um balão.

E dentro do balão? uma mulher.

MARTE

Quem é?

CUPIDO

(voltando)

Vênus!

APOLO

Vênus!

MARTE

Embora! É grande a minha fé.

Sou um deus vingador, não sou um deus amante.

É inútil.

APOLO

(batendo no ombro de Cupido)

Meu caro, é inútil.

MARTE

O farfante

Cuida que ainda é o mesmo.

CUPIDO

Está bem.

APOLO

Vai-te embora.

É conselho de amigo.

CUPIDO

(senta-se)

Ah! eu fico!

APOLO

Esta agora!

Que pretendes fazer?

CUPIDO

Ensinar-vos, meu tio.

APOLO

(continua...)

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