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#Contos#Literatura Brasileira

O programa

Por Machado de Assis (1872)

E três laudas mais dessas ironias graciosas, meigas indignações de amigo, que o outro leu, e a que respondeu com estas palavras: “Pronto para o que der e vier!” Não, não ficou pronto para o que desse e viesse; não ficou pronto, por exemplo, para a cara triste, abatida, com que dous meses depois lhe entrou em casa, à Rua da Misericórdia, o nosso Romualdo. Nem para a cara triste, nem para o gesto indignado com que atirou o chapéu ao chão. Lucinda traíra-o! Lucinda amava o promotor! E contou-lhe como o promotor, mancebo de vinte e seis anos, nomeado poucos meses antes, tratara logo de cortejar a moça, e tão tenazmente que ela em pouco tempo estava caída.

— E tu?

— Que havia de fazer?

— Teimar, lutar, vencer.

— Pensas que não? Teimei; fiz o que era possível, mas... Ah! se tu soubesses que as mulheres... Quinze anos! Dezesseis

anos, quando muito! Pérfida desde o berço... Teimei... Pois não havia de teimar? E tinha por mim o Josino, que lhe disse as últimas. Mas que queres? O tal promotor das dúzias... Enfim, vão casar.

— Casar?

— Casar, sim! berrou o Romualdo, irritado.

E roía as unhas, calado ou dando umas risadinhas concentradas, de raiva; depois, passava as

mãos pelos cabelos, dava socos, deitava-se na rede, a fumar cinco, dez, quinze cigarros...

CAPÍTULO V / NO ESCRITÓRIO

DE ORDINÁRIO, o estudo é também um recurso para os que têm alguma coisa que esquecer na vida. Isto pensou o nosso Romualdo, isto praticou imediatamente, recolhendo-se a S. Paulo, onde continuou até acabar o curso jurídico. E, realmente, não foram precisos muitos meses para convalescer da triste paixão de Guaratinguetá. É certo que, ao ver a moça, dous anos depois do desastre, não evitou uma tal ou qual comoção; mas, o principal estava feito.

“Virá outra”, pensava ele consigo.

E, com os olhos no casamento e na farda de ministro, fez as suas primeiras armas políticas no último ano acadêmico. Havia então na capital da província uma folha puramente comercial; Romualdo persuadiu o editor a dar uma parte política, e encetou uma série de artigos que agradaram. Tomado o grau, deu-se uma eleição provincial; ele apresentou-se candidato a um lugar na Assembléia, mas, não estando ligado a nenhum partido, recolheu pouco mais de dez votos, talvez quinze. Não se pense que a derrota o abateu; ele recebeu-a como um fato natural, e alguma coisa o consolou: a inscrição do seu nome entre os votados. Embora poucos, os votos eram votos; eram pedaços da soberania popular que o vestiam a ele, como digno da escolha.

Quantos foram os cristãos no dia do Calvário? Quantos eram naquele ano de 1864? Tudo estava sujeito à lei do tempo.

Romualdo veio pouco depois para a corte, e abriu escritório de advocacia. Simples pretexto. Afetação pura. Comédia. O escritório era um ponto no globo, onde ele podia, tranqüilamente, fumar um charuto e prometer ao Fernandes uma viagem ou uma inspetoria de alfândega, se não preferisse seguir a política. O Fernandes estava por tudo; tinha um lugar no foro, lugar ínfimo, de poucas rendas e sem futuro. O vasto programa do amigo, companheiro de infância, um programa em que os diamantes de uma senhora reluziam ao pé da farda de um ministro, no fundo de um coupé, com ordenanças atrás, era dos que arrastam consigo todas as ambições adjacentes. O Fernandes fez esse raciocínio: — Eu, por mim, nunca hei de ser nada; o Romualdo não esquecerá que fomos meninos. E toca a andar para o escritório do Romualdo. Às vezes, achava-o a escrever um artigo político, ouvia-o ler, copiava-o se era necessário, e no dia seguinte servia-lhe de trombeta: um artigo magnífico, uma obra-prima, não dizia só como erudição, mas como estilo, principalmente como estilo, coisa muito superior ao Otaviano, ao Rocha, ao Paranhos, ao Firmino, etc.

— Não há dúvida, concluía ele; é o nosso Paul-Louis Courier. Um dia, o Romualdo recebeu-o com esta notícia:

— Fernandes, creio que a espingarda que me há de matar está fundida.

— Como? não entendo.

— Vi-a ontem...

— A espingarda?

— A espingarda, o obus, a pistola, o que tu quiseres; uma arma deliciosa.

— Ah!... alguma pequena? disse vivamente o Fernandes.

— Qual pequena! Grande, uma mulher alta, muito alta. Cousa de truz. Viúva e fresca: vinte e seis anos. Conheceste o B...? é a viúva.

— A viúva do B...? Mas é realmente um primor! Também eu a vi, ontem, no Largo de São Francisco de Paula; ia entrar no carro... Sabes que é um cobrinho bem bom? Dizem que duzentos...

— Duzentos? Põe-lhe mais cem.

— Trezentos, heim? Sim, senhor; é papa-fina!

E enquanto ele dizia isto, e outras coisas, com o fim, talvez, de animar o Romualdo, este ouvia-o calado, torcendo a corrente do relógio, e olhando para o chão, com um ar de riso complacente à flor dos lábios...

(continua...)

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