Por Machado de Assis (1892)
— Que coisa horrível! exclamou Barreto. Quem se livra de uma destas? Com a folha nos joelhos, fitou os olhos no chão, reconstruindo a cena pelas simples indicações do noticiarista. Depois, tornou à folha, leu outras coisas, o artigo de fundo, os telegramas, um artigo humorístico, cinco ou seis prisões, os espetáculos da antevéspera, até que se levantou de repente lembrando-se que estava perdendo tempo. Acabou de vestir-se, escovou o chapéu com toda a paciência e cuidado, pô-lo na cabeça diante do espelho, e saiu. No fim do corredor, reparou que levava a Gazeta, para lê-la ao almoço, mas já estava lida. Voltou, deitou a folha por baixo da porta do quarto e saiu à rua.
Dirigiu-se para o hotel em que costumava almoçar, e não era longe. Ia apressado para desforrar o tempo perdido; mas não tardou que a natureza vencesse, e o passo tornou ao de todos os dias. Talvez a causa fosse a bela Ermelinda, porque, havendo pensado ainda uma vez no noivo, a moça veio logo, e a idéia do casamento meteu-se-lhe no cérebro. Não teve outra até chegar ao hotel.
— Almoço, almoço, depressa! disse ele sentando-se à mesa.
— Que há de ser?
— Faça-me depressa um filé e uns ovos.
— O costume.
— Não, não quero batatas hoje. Traga petit-pois... Ou batatas mesmo, venha batatas, mas batatas miudinhas. Onde está o Jornal do Commercio?
O criado trouxe-lhe o Jornal, que ele começou a ler, enquanto lhe faziam o almoço. Correu à notícia do assassinato. Quando lhe trouxeram o filé, perguntou que horas eram.
— Faltam dez minutos para o meio-dia, respondeu o criado.
— Não me diga isso! exclamou o Barreto espantado.
Quis comer às carreiras, ainda contra o costume; despachou efetivamente o almoço o mais depressa que pôde, reconhecendo sempre que era tarde. Não importa; prometera acabar a cópia, iria acabá-la. Podia inventar uma desculpa, um acidente, qual seria? Doença, era natural de mais, natural e gasto; estava farto de dores de cabeça, febres, embaraços gástricos. Insônia, também não queria. Um parente enfermo, noite velada? Lembrou-se que já uma vez explicara uma ausência por esse modo. Era meia hora depois do meio-dia, quando bebeu o ultimo gole de chá. Ergueu-se e saiu. Na rua parou. A que horas chegaria? Tarde para acabar a cópia, para que ir à Secretaria tão tarde? O diabo fora o tal assassinato, três colunas de leitura. Maldito bruto! Matar a mulher e os filhos. Aquilo foi bebedeira, de certo. Assim reflexionando, ia o Barreto, caminhando para a Rua dos Ourives, sem plano, levado pelas pernas, e entrou na charutaria do Brás. Já lá achou dois amigos.
— Então, que há de novo? perguntou ele, sentando-se. Tem passado muito rabo de saia?
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caso Barreto. A Estação. Rio de Janeiro, 1892.