Por Machado de Assis (1858)
O som da inúbia, palpitar-lhe sente
Mais forte o coração. Súbito irada
Os negros fios ásperos saco de
Que ao longo da trigueira espádua caem,
E veloz arrojando-se nas ondas
Sublevá-las intenta; encher com elas
Campos e montes... Infeliz! Cansada,
Arquejante e chorosa se recolhe;
Não ficou Natureza de seus braços
Tamanha empresa; e a linfa que murmura,
Como sentida dos maternos males,
Lânguida volve as preguiçosas ondas.
XIII
De tais sucessos desdenhando a Ira
À casa se encaminha do prelado.
Já não arde o furor nos olhos dela;
Pensativos os leva; um meio busca,
Um decisivo golpe com que abale
A adormecida igreja, quando a tunda
Ocorre do tabelião pacato
Freire, amador de moças e aventuras.
Quem as armas brandiu daquele crime?
As mãos dos servos do prelado foram.
Este caso em seu íntimo revolve
A fera culpa; os olhos fita; pensa...
Repentino sorriso os lábios lhe abre;
Arreganho disséreis de faminto
Jaguaruçu; achado é o grande golpe.
As asas bate a Ira e revoando
À casa vai do esmorecido Freire.
CANTO III
I
.....................................
.....................................
II
Que lance há hi, nessa comédia humana,
Em que não entrem moças? Descorada,
Como heroína de romance de hoje,
Alva, como as mais alvas deste mundo,
Tal, que disseras lhe negara o sangue
A madre natureza, Margarida
Tinha o suave, delicado aspecto
De uma santa de cera, antes que a tinta
O matiz beatífico lhe ponha.
Era alta e fina, senhoril e bela.
Delicada e subtil. Nunca mais vivo
Transparecera em rosto de donzela
Vergonhoso pudor, agreste e rude,
Que até de uns simples olhos se ofendia,
E chegava a corar, se o pensamento
Lhe adivinhava anônimo suspiro
Ou remota ambição de amante ousado.
Era vê-la, ao domingo, caminhando
À missa, coos parentes e os escravos
A um de fundo, em grave e compassada
Procissão; era ver-lhe a compostura,
A devoção com que escutava o padre,
E no agnus dei levava a mão ao peito,
Mão que enchia de fogos e desejos
Dez ou doze amadores respeitosos
De suas graças, vários na figura,
Na posição, na idade e no juízo,
E que ali mesmo, à luz dos bentos círios.
(Tão de longe vêm já os maus costumes!)
Ousavam inda suspirar por ela. [14]
III
Entre esses figurava o moço Vasco.
Vasco, a flor dos vadios da cidade,
Namorador dos adros das igrejas,
Taful de cavalhadas, consumado
Nas hípicas façanhas, era o nome
Que mais na baila andava.
Moça havia Que por ele trocara (erro de moça!)
0 seu lugar no céu; e este pecado,
Inda que todo interior e mudo,
Dous terços lhe custou de penitência
Que o confessor lhe impôs. Era sabido
Que nas salas da casa do governo,
Certa noite, de mágoa desmaiaram
Duas damas rivais, porque o magano
As cartas confundira do namoro.
Estas proezas tais, que o fértil vulgo
Com aumentos de casa encarecia,
E a bem lançada perna, e o luzidio
Dos sapatos, e as sedas e os veludos,
E o franco aplauso de uns, e a inveja de outros,
O cetro lhe doaram dos peraltas.
IV
E, contudo, era em vão que à ingênua dama
A flor do esquivo coração pedia;
Inúteis os suspiros lhe brotavam
Do íntimo do peito; nem da esperta
Mucama, - natural cúmplice amiga
Desta sorte de crimes, lhe valiam
Os recados de boca; - nem as longas,
Maviosas letras em papel bordado,
Atadas coa simbólica fitinha
Cor de esperança, - e olhares derretidos,
Se a topava à janela, - raro evento,
Que o pai, varão de bolsa e qualidade,
Que repousava das fadigas longas
Havidas no mercado de africanos,
Era um tipo de sólidas virtudes
E muita experiência. Poucas vezes
Ia à rua. Nas horas de fastio,
A jogar o gamão, ou recostado
Com um vizinho, a tasquinhar nos outros,
Sem trabalho maior, passava o tempo.
V
Ora, em certo domingo, houve luzida
Festa de cavalhadas e argolinhas,
Com danças ao ar livre e outros folgares,
Recreios do bom tempo, infância d´arte,
Que o progresso apagou, e nós trocamos
Por brincos mais da nossa juventude
E melhores decerto; tão ingênuos,
Tão simples, não. Vão longe aquelas festas,
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.