Por Machado de Assis (1876)
O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e natural do mundo, e uma facilidade de elocução que Estácio mal lhe podia supor. Era aquilo uma comédia ou a expressão da verdade? Estácio olhou fixamente para ele, como a querer penetrá-lo. Ao mesmo tempo, ouviu-se um rumor na parte da casa que ficava além da sala; Estácio voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo nas mãos uma bandeja. A criada estacou a meio caminho.
Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almoço, continuou ele, voltando-se para Estácio; almoço parco e higiênico. Ousarei oferecer-lho?
Estácio fez um gesto negativo, e dispôs-se a sair.
Já! Não é meu intento despedi-lo; almoçarei conversando. Vivo tão solitário que a presença de alguma pessoa é para mim um encanto...
Estácio aceitou sem dificuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao pé da mesa, e assistiu ao almoço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hóstias de queijo duro e uma chávena de café. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de um estranho a simplicidade de seus hábitos.
Não é refeição de príncipe, dizia ele, mas satisfaz todas as ambições de um estômago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha é contígua; além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o infinito da indiferença humana.
E depois de um silêncio:
Não digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferença. Meu trabalho não me dá mais do que escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.
Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chávena, e reclinou-se sobre a cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estácio refletiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veio rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dois homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao dono da casa.
Obrigado, disse este.
Não fuma?
Já fumei; hoje economizo esse vício. Nem por isso faço mais lentamente a digestão.
Mora só?
Só.
Não tem família?
Nenhuma.
Há de achar-me singularmente indiscreto...
Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.
Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu conhecesse alguma dessas mãos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte.
Dar-me-ia, por intermédio delas, o seu óbolo?
Se o não ofendesse...
Não ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peço-lhe desde que o não faça às escondidas...
Estácio fez um gesto de assentimento.
Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obséquio, um simples dever de vizinho... Pareceria que o senhor mo pagava com um benefício. O benefício seria menos espontâneo de sua parte e menos agradável para mim. Agradável não exprime, talvez, toda a minha idéia; mas o senhor facilmente compreenderá o que quero dizer.
Entendeu-me mal; o meu óbolo não seria na espécie a que o senhor alude. Tenho amigos e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição.
O desconhecido refletiu um instante.
Aceitaria? perguntou Estácio.
Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale. Eu vexar-me-ia eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.
Já me não admira a vida pobre que tem tido.
Excessivo escrúpulo, talvez?...
Escrúpulo desarrazoado.
Antes demais que de menos.
Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.
A porção varia, conforme as necessidades morais de cada um. Mas eu mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre tive esta virtude intratável; e porventura alguma vez fraqueei...
A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos lábios, e os olhos caíram naquela atonia que exprime uma grande concentração de espírito. Era ocasião de interrogá-lo diretamente ou sair. Estácio preferiu o último alvitre.
Não o quero demorar mais, disse o dono da casa, quando o mancebo proferiu as palavras de despedida. Já é tarde, e sua mãe talvez esteja ansiosa.
Estácio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:
Se alguma vez resolver dar de mão a seus escrúpulos, mande procurar-me. Minha casa é conhecida em todo Andaraí pela casa do Conselheiro Vale...
O desconhecido, em cujo rosto Estácio esperou ver um sinal qualquer de abalo ou surpresa, conservou-se impassível e risonho. Curvou-se em sinal de agradecimento; e como Estácio hesitasse em estender-lhe a mão, ele meteu as suas nas algibeiras.
Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da porta.
Sim?
Passeio algumas vezes por estes lados.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.