Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:
Pegue ladron! pegue ladron!...
Mas qual - pega ladrão! -: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda muito mais do inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.
Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.
O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.
Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse, mas disse com orgulhosa gravidade britânica:
- Amanhã faz queixa a ministro de Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.
Ah! eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.
É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil por Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenizações do chapéu e da casaca que o patrício perdera.
Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além do da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Cano hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.
O namorado era estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.
Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.
O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.
O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.
Novo erro: a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço à boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.
O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.
Um tigre matou aquele amor.
Com efeito, amor todo cheio de poéticos sonhos não podia resistir à realidade fatal da materialíssima influência ridícula do tigre.
O estudante, noivo já infeliz antes de casado, não quis expor-se aos risos da noiva ainda depois do casamento.
E o tigre foi causa de morrer viúva, e de morrer solteiro, ambos precocemente, aquele par de ternos namorados.
A edilidade do Rio de Janeiro lembrou-se enfim de banir os tigres.
Mas não pensem que lembrar, querer e conseguir fosse obra de poucos dias, ou fiat de enérgica vontade.
Primeiro houve horas marcadas para o saimento e despejo dos tigres, e praias determinadas e exclusivamente concedidas para o despejo deles.
Depois usaram para os despejos barris que pelo menos se proclamavam hermeticamente fechados, e depois carroças conduzindo em grandes caixas tampadas aqueles mesmos barris.
Finalmente veio como último e inexcedível melhoramento o City lmprovements com os seus esgotos subterrâneos; não ponho em dúvida a excelência do sistema, nego, porém, que tenha sido preceituosamente executado no Rio de Janeiro. Com certeza a City lmprovements não é hermeticamente fechada; freqüentemente respira malefícios nas casas, e nas ruas da cidade, faz então lembrar o tempo dos tigres, e, honra lhe seja feita, em tais casos a City lmprovements é tigre colossal.
Os tifos e as febres perniciosas têm muito que agradecer aos evidentes defeitos do tal sistema subterrâneo que espalha miasmas subterrâneos.
Até onde me levou a história dos tigres! e que contraste, quando eu tratava das perfumarias da Rua do Ouvidor!...
Pois não vou adiante.
Eu tinha ainda muito que referir da história antiga deste quarteirão da Rua do Ouvidor; tinha mesmo um pequeno romance de outro estudante que andava diariamente e sempre com o relógio atrasado para ter o gosto de acertá-lo por pêndula que não claudicava; até que uma vez, quando o estava acertando, espirrou inesperadamente e quebrou o relógio sem nunca ter podido adiantá-lo.
Mas estou aborrecido do ruim e feio assunto de que acabei de ocupar-me e suspendo ou interrompo a viagem, ficando no canto da Rua dos Ourives.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.