Por Eça de Queirós (1940)
Mas que pode fazer a Inglaterra? A Inglaterra tem de aceitar os factos realizados. Não tem alianças: a França está decidida a não se mexer, nem para dar uma opinião; até declarou que vai à conferência contra vontade, por dever de etiqueta; a Áustria está imobilizada pela Alemanha; a Itália igualmente. O que resta à Inglaterra? Os pequenos estados constitucionais, com que ela poderia formar uma cruzada liberal contra a Rússia. Armemos os pequenos estados constitucionais, diz-se aqui, armemos a Bélgica, a Holanda, Portugal, e teremos um efectivo de duzentos mil homens. Mas esta aliança com os pequenos não parece do gosto da política de Lord Beaconsfield; os jornais tories nem mesmo lhe dão a importância de lhe enunciar a possibilidade; ela não daria à Inglaterra, estrategicamente, um concurso eficaz, e só traria a esses estados catástrofes. Nenhum deles tem interesses na questão do Oriente; nenhum deles tem a loucura de gastar o seu sangue (dado que a Inglaterra forneça o dinheiro) para batalhar as batalhas da Inglaterra; nenhum deles aceitaria comprometer o seu progresso, a sua tranquilidade, o seu comércio, o seu trabalho, sem mesmo poder esperar compensações; a Inglaterra não tem sido uma mãe tão carinhosa que mereça que se faça por ela sacrifícios quando ela está em dificuldades: a sua gratidão é suspeita; não há, como ela, para abandonar um amigo num dia de crise; vide a história lamentável da Dinamarca. Os pequenos estados, portanto, declinariam, sem dúvida, a honra desta aliança ilustre. E a Inglaterra só tem a continuar isolada.
E é assim que a Alemanha paga à Rússia a sua dívida de 1870 e 1871. O que tem sido esta guerra do Oriente? O pagamento de uma dívida de gratidão. A Rússia em 1870 deixou a Alemanha arrancar à França duas províncias e cinco milliards e constituir a unidade germânica na família dos Hohenzollerns. A Alemanha, por seu turno, deixa a Rússia estender-se do lado da Ásia e da Turquia, encarregando-se de conservar a Europa quieta e imóvel. Tudo isto se passa entre Guilherme Hohenzollern e Alexandre Romanoff, e entre os dois velhos amigos, os dois velhos compadres de Frankfürt, Bismarck e Gortschatcoff. Delicadezas trocadas entre personagens! E Bismarck, por outro lado, consegue um grande fim: a Rússia quanto mais se alarga mais se enfraquece, quanto mais se arma mais se arruína. A Alemanha anima-a neste caminho, como os agiotas animam os filhos-famílias à vida aventureira e rica. A Rússia, concentrando-se, desenvolvendo os seus poderosos recursos, formando-se para a liberdade, será um terrível vizinho para a Alemanha; mas a Rússia, lançando-se nas aventuras da cruzada cristã na Ásia e da cruzada pan-eslavista no Sul da Europa, marcha à sua ruína, pelos desperdícios da força. De modo que Bismarck, ao mesmo tempo que paga a dívida de gratidão ao seu aliado, impele-o implicitamente à decadência. Política sábia, bem própria do antigo coronel dos couraceiros que uma retórica consagrada transformou no solitário de Varzin.
Annuncio vobis gaundium magnum: habemos pontificem. Desde esta declaração lançada de uma janela do Vaticano sobre o povo romano, na Praça de 5. Pedro, todas as preocupações do mundo católico e incatólico estão fixadas em Joaquin Pecci, Leão XIII, papa infalível pela reunião dos votos de quarenta e cinco cardeais falíveis. O que prova que quarenta e cinco falibilidades fazem uma infalibilidade. Leão XIII parece ser um homem rígido, com experiência do mundo e do governo, prático, bom administrador, de tendências ligeiramente liberais, de vida austera, letrado, poeta mesmo. A sua figura é um pouco ascética, não tem nada daquela doce e risonha velhice de Pio IX, tão cheia de afabilidade, de suavidade, de graça e de finura: Leão XIII tem uma velhice seca, imponente, um pouco triste.
O povo romano deu vivas ao saber a sua nomeação, o que não impediu que ontem apedrejasse as janelas do Palácio Toleschi, que se iluminara para celebrar a coroação de Leão
XIII.
Isto provém do exacto sentimento italiano: estimam bem que o papa seja um italiano que resida em Roma, depois de ter sido nomeado em Roma, e que seja liberal – mas não querem que o papado saia do Vaticano e se misture à vida civil. A nomeação do italiano Pecci agradou-lhes – mas que os palácios de Roma façam iluminações, agora que ele está nomeado, não! O Governo é absolutamente da mesma ideia: e toda a demonstração papal fora das sombras do Vaticano encontrará a sua reprovação; e assim não permitiu que a coroação de Leão XIII fosse pública. Isto dará em breve a sua consequência. Leão XIII encerrar-se-á no Vaticano, como Pio IX, e pôr-se-á em hostili-dade ao Governo italiano e ao mundo liberal, como Pio IX, o que é no fundo a lógica, a força e a glória do papa e do papado.
Não há nenhuma novidade literária ou teatral. A política absorve toda a actividade cerebral: os filósofos fazem artigos de política nas revistas; os romancistas, mais batalhadores e mais exaltados, fazem-na nos jornais; os poetas fazem canções bélicas; e os pintores alegorias patrióticas: e todas estas produções são medíocres. A imprensa tem-se, sobre a questão do Oriente, entregado a um fluxo labial desordenado. Rolam torrentes de prosa e de retórica. Entre os que se chamam partido da paz – e os que se chamam partido da guerra – há uma luta de eloquência, que tem todos os pesados furores, todo o animal encarniçamento do boxe.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.