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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Ah, conhece — exclamou o individuo, com a face clareada de riso.

Inquieto, Arthur acudia :

— De nome !

— Ah ! . . . Excellente senhora.

Accommodou maternalmente John no cesto, sobre o seu leito d'algodão, e estirando discretamente os braços: declarou que o que tinham a fazer era dormir até Lisboa. S. Ex. a dava licença que corresse 0 transparente da lampada, não Perfeitamente. Arranjou o travesseiro, estirou-se com um ah de gozo, cruzou as mãos sobre a pelliça, e cantarolou com melancolia, como uma oração da noite :

Si tu n'avais rien à me dire

Pourquoi venir anpres de moi ?

Bocejou enormemente e d'ahi a pouco resonava com dignidade.

Axthur, fatigado, foi cerrando os olhos, no seu canto, na penumbra do wagon Parecia-lhe estar n'um sala, toda d'ouro e velludo, onde a senhora Marqueza de Folhes conversava com a tia Sabina, fallando d'elle . . . mas não as ouvia bem por causa d'um estrondo de ferragens que rolavam surdamente. De repente, fazia-se um silencio e acordava: luzes mortiças, ao lado, alumiavam uma estação ; vultos abafados, fóra, na noite, passavam com lanternas. Chovia sempre ; havia um silencio infinito na negrura dos campos adormecidos, e adeante, na sombra, sem descontinuar, a machina resfolgava baixo. Depois o comboio rolava de novo, e o seu sonho retomava-o atravez d'uma sensação de frialdade nos pés : reconhecia que era um lago muito azul, batido de luar ; o Rabecaz e elle remavam n'um bote, com o Almirante ao leme. Então, junto d'elle, na escuridão, uma voz de timbre andaluz suspirava o seu nomo ; voltava-se, via dous olhos arabes, scintillando sob uma mantilha hespanhola : ia beijal-os, mas a mantilha, escorregando, descobria uma caveira ! Acordou com um estremeção Uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado :

— Alhandra ! Alhandra !

Um ar livido de madrugada clareava atravez da neblina chuvosa. Saloios de varapaus, encolhidos nas mantas listradas, passavam ; na plataforma, descarregavam-se caixotes ; um comboio de mercadorias rolou ao lado, com wagons carregados de pipas, e outros, gradeados, d'onde sahiam cornos de bois. Depois, um creado de farda passou, correndo, com um ramo de flores na mão.

O coração d'Arthur bateu, invadido da alegria d'aquella proximidade de Lisboa.

O comboio partiu de novo. Pareceu-lhe, atravez da nevoa, avistar uma superficie de rio côr d'aço ; depois um campo d'oliveirag correu ao lado ; e os seus olhos, fixos nos vidros embaciados, foram-se cerrando, na fadiga d'aquella madrugada fria . . .

— Povoa ! Povoa !

Despertou.

O sujeito de pelliça, sentado, espreguiçava-se. — Ora emfim ! Nous coità !

Ergueu-se, ageitou a pelliça, poz um chapéu de casimira, e entreabrindo o cesto do pug :

— Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido o amigo John, hein ? Chegámos, percebeu? . . . Aqui está na patria de Luiz de Camões! Voltou-se para Arthur, rindo do seu gracejo :

Não é má, hein ? — e repetiu ao pug que gaInia : -—- Aqui estamos na patria de Camões.

A machina silvava. E Arthur, excitado, via agora, á esquerda, estender-se o rio largo e baço, agitado sob o vento. Os montes da outra-banda confundiamse com o empastamento das nuvens. Uma falua, de vela cheia, cortava a espuma, á bolina, na manhã aspera. Arthur devorava com os olhos aquellas vizinhanças de Lisboa : uma fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, altas chaminés de tijolo. Nos Olivaes, o sujeito da pelliça, julgando vêr um amigo entre a gente na plataforma, precipitou-se para a portinhola, gritando :

— Oh, visconde ! oh, visconde !

Mas o comboio partiu. Antigos wagons desmantelados, um alpendre com fardos, correram ao lado —e um empregado, todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, recolheu á pressa os bilhetes.

Arthur palpitava todo. Lisboa ! Era emfim Lisboa ! Abaixara a vidraça e o ar parecia-lhe cheio d'uma vida mais intensa, todo penetrado da respiração larga da cidade que ainda dormia na manhã humida.

Com um grande estrondo o comboio entrou na estação. A plataforma ficou logo cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se ; havia nas faces um ar estremunhado e pasmado ; uxna creanga chorava desesperadamente, e, quando á porta de



(continua...)

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