Por Eça de Queirós (1900)
Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dois moços da horta, o Ricardo e o outro de queixo de cavalo, que o esperassem no pátio, armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma "Sala de armas" - cacifro tenebroso, junto ao Arquivo, onde se amontoavam peças aboladas de armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco, alabardas, espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta poeirenta ferralhagem negra três espingardas limpas com que os moços da quinta, na romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.
Depois, ele, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou do armário da corredor um velho bengalão de cabo de chumbo entrançado, agarrou um apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo Alvaralhão, com os dois criados de caçadeira ao ombro, importantes e tesos, partiu para Vila-Clara, procurar o Sr. Administrador do Concelho. A noite envolvia os campos em sossego e frescura. A lua nova, que alimpara o tempo, roçava a crista das outeiros de Valverde como a roda lustrosa dum carro de ouro. No silêncio os rijos sapatões pregueados dos dois jornaleiros ressoavam em cadência. E Gonçalo adiante, de charuto flamante, gozava aquela marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa Irenéia com homens da sua mercê e solarengos armados.
Ao começo da vila, porém, recolheu discretamente a escolta na taverna da Serena: e ele cortou para o Mercado da Erva, para a Tabacaria do Simões, onde o Gouveia, àquela hora, antes da partida da Assembléia, costumava pousar, comprar uma caixa de fósforos, considerar pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas nessa noite o Sr. Administrador faltara ao Simões costumado. Largou então para a Assembléia; e logo embaixo, no bilhar, um sujeito calvo, que contemplava as carambolas solitárias do marcador, espapado na bancada, de colete desabotoado, mascando um palito - informou o Fidalgo da doença do amigo Gouveia:
- Coisa leve, inflamação de garganta... V. Exa. decerto o encontra em casa. Não arreda do quarto desde domingo.
Outro cavalheiro, porém, que remexia o seu café à esquina duma mesa atulhada de garrafas de licor, afiançou que o Sr. Administrador já espairecera nessa tarde. Ainda pelas cinco horas ele o encontrara na Amoreira, com o pescoço atabafado numa manta de lã.
Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha.. E atravessava o largo da Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, à porta muita alumiada da loja de panos do Ramos, conversando com um homenzarrão de forte barba retinta e de guarda-pó alvadio.
E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para Gonçalo:
- Então, já sabe?
- O quê?- Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena! - O quê?
- Morreu!
O Fidalgo embasbacou para o Administrador, depois para o outro cavalheiro, que repuxava na mão enorme, com um esforço inchado, uma luva preta apertada e curta.
- Santo Deus!... Quando?
- Esta madrugada. De repente. Angina pectoris, não sei quê no coração... De repente, na cama.
E ambos se consideraram, em silêncio, no espanto renovado daquela morte que impressionava Vila-Clara. Por fim Gonçalo:
- E eu ainda há bocado, na Torre, a falar dele! E, coitado, como sempre, com pouca admiração...
- E eu! - exclamou o Gouveia. - Eu, que ainda ontem lhe escrevi!... E uma carta comprida, porcausa dum empenho do Manuel Duarte... Foi o cadáver que recebeu a carta.
- Boa piada! - rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra a luva. - O cadáverrecebeu a carta... Boa piada!
O Fidalgo torcia a bigode, pensativo:
- Ora, ora... E que idade tinha ele?
O Gouveia sempre o imaginara um completo velho, de setenta invernos. Pois não! apenas sessenta, em dezembro. Mas consumido, arrasado. Casara tarde, com fêmea forte...
- E aí temos a bela D. Ana, viúva aos vinte e oito anos, sem filhos, naturalmente herdeira, com oseu mealheiro de duzentos contos... Talvez mais!
- Boa maquia! - roncou de novo o opado homem que enfiara a luva, e agora gemia, com asveias túmidas, para lhe apertar o colchete.
Aquele cavalheiro constrangia o Fidalgo - ansioso por desafogar com o Gouveia sobre "a vacatura política", assim inesperadamente aberta, no círculo de Vila-Clara, pela brusca desaparição do chefe tradicional. E não se conteve, puxou o Administrador pela botão da sobrecasaca para a sombra favorável da parede:
- Oh! Gouveia! então agora, bem?... Temos eleição suplementar... Quem virá pelo círculo?
E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do homenzarrão de guarda-pó, que, enfim enluvado, acendera a charuto, se acercava com familiaridade - deduziu as fatos:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.