Por Camilo Castelo Branco (1862)
- Se quer, eu levo a cabaz e o vinho - disse eu.
- Não é preciso: eu posso bem com isto.
- Ao menos deixe-me levar uma das coisas.
- Então leve a cabaça, que pesa menos.
Caminhámos ombro a ombro para a casa da eira. Tomásia parou muitas vezes a saudar os velhos e velhas que ia encontrando.
Os velhos diziam-lhe:
- Deus te guarde, flor.
E as velhas já de longe vinham dizendo:
- Aí vem o anjinho do Céu, a mãe da pobreza.
E ela ia tirando do cabaz alguns punhados de fruta para dar às que não a tinham de sua casa. Passámos no adro da igreja.
Em frente da porta principal, Tomásia depôs o cesto sobre o baixo muro do adro, fitou os olhos no santo, que tinha o seu nicho sobre a padieira da porta, fez curta oração, benzeu-se e tomou o cabaz.
Ao assomarmos ao beirado da eira, os criados, que andavam a limpar o centeio com pás e peneiras, redobraram de canseira.
- Assim que nos lobrigaram - disse Tomásia -, olhe como eles labutam! São uns calaceiros daquela casta!
E, levantando a voz, disse:
- Venham à fruta, a ver se refrescam. O serviço que vocês todos seis Têm feito fazia-o eu sozinha com uma perna às costas. Sempre estão umas rabaças, vocês!
Enquanto os criados comiam sofregamente as cerejas, as peras, os malápios e os gelemendes, Tomásia, ora com a pá, ora com a peneira, limpou uma rima de centeio, procurando a eminência mais ventilada da eira. O vento sacudia-lhe levemente a fimbria da saia de chita curta de grandes rofegos na cintura. Como erguia os braços ao alto, as largas mangas da camisa arregaçavam até aos ombros, e os folhos alvíssimos do peitilho, soprados pela viração, descobriam-lhe o seio, até onde o vento pode descobrir sem desairar o pudor.
Pareceu-me bonita assim, muito mais que vestida de amazona, calçada de duraque, e implumada, qual a vi na romagem do S. João.
Voltaram os servos para o trabalho, e Tomásia veio sentar-se ao pé de mim debaixo dum coberto de colmo.
- Está fatigada? - disse-lhe eu!
- Agora estou! Vim para aqui fazer-lhe um migalho de companhia e depois torno lá. Hoje o pão há-de ficar nas tulhas, custe o que custar.
- E deixa-me sozinho aqui?!
- Vossemecê, em se aborrecendo, vá para a casa, que lá está o pai e os tios. Vá jogar a bisca com os padres, que eles gostam muito. Sempre são!... Eu, se tivesse filhos, padre, Deus me perdoe, que não havia de ser nenhum!
- Porquê? Tem zanga dos padres?
- Agora tenho; os padres são a imagem de Deus; mas não fazem nada numa casa; dizem a sua missa, vão aos enterros e às festas, mas coisa de botarem a mão a uma sachola para tapar uma poça, ou cortar um agueiro, isso não é capaz! Olhe vossemecê ali em minha casa quatro padres duma assentada sem fazerem nada, a olharem uns pròs outros e a lerem a gazeta de Lisboa... Eles aí vêm... é milagre saírem de casa a esta hora! Vêm cá pr’amor do Sr. Silvestre.
Chegam os quatro clérigos, e um deles vinha com a Nação em punho, explicando aos outros um relanço difícil do artigo de fundo.
Fui consultado acerca da passagem obscura, e o meu parecer esclareceu as dúvidas. Tomásia, enquanto eu falava uma linguagem para ela inapercebida, estava com os olhos postos em mim. Os padres louvaram a minha esperteza, e o mais velho, oráculo dos outros, disse:
- Ora o senhor, com esse talento que Deus lhe deu, devia ser realista!... É uma ingratidão não defender a religião de nossos pais quem tanto deve à Providência.
Redargui que respeitava a religião de nossos pais e que a política era uma coisa incidental na vida das nações, de todo o ponto estranho à religião.
Discutimos mansamente uma hora.
Tomásia fatigou-se logo de nos ouvir e foi trabalhar.
V
À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.
Estava o estômago no mais activo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arrombam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.
Quando acordei tinha sobre a face um lenço de linho, branco de neve.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.