Por Machado de Assis (1891)
-Um escândalo! insistia o demitido. O próprio ministro dizem que não gostou do ato; mas V. Ex.a sabe, para não desmoralizar o diretor . . .
-Pan... pan... pan... soavam os martelos surdamente, pregando o caixão.
Rubião acedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o demitido. Fora, alguma gente parada; os vizinhos, às janelas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquela curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o coupé do Rubião, que se destacava das caleças velhas Já se falava muito daquele amigo do finado, e a presença confirmou a notícia. O defunto era agora apreciado com certa consideração.
No cemitério, não se contentou Rubião com deitar a pá de terra, ato em que foi primeiro, por solicitação de todos- esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas grandes pás do ofício. Tinha os olhos úmidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz
-Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim...
CAPÍTULO CII
ERA NOITE entrada. Rubião vinha por ali abaixo, recordando o pobre-diabo que enterrara, quando, na Rua de S. Cristóvão, cruzou com outro coupé, que levava duas ordenanças atrás. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubião pôs a cabeça de fora, recolheu-a e ficou a ouvir os cavalos das ordenanças, tão iguaizinhos, tão distintos, apesar do estrépito dos outros animais. Era tal a tensão do espírito do nosso amigo, que ainda os ouvia, quando já a distância não permitia audiência. Catrapus... catrapus... catrapus...
CAPÍTULO CIII
AO SÉTIMO DIA da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em São Francisco de Paula; Rubião lá foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a devolução da carta; três dias depois, meteu-a no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedita fora visitar as amigas da vizinhança, que a tinham acompanhando nos primeiros dias de aflição; Sofia estava só, vestida para sair.
-Mas, não importa, disse ela convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde. Rubião retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.
-Em todo caso, sente-se; também se pode dar um papel sentado.
Estava tão bonita, que ele hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cor. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de seda cousas todas que pediam misericórdia e perdão. Quanto à espada daquela bainha,-assim chama à alma um velho autor,-parecia não ter gume nem campanhas; era uma ingênua faca de marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.
-Que papel? perguntou Sofia.
-Um papel que suponho grave, respondeu ele contendo-se;- não se recorda ou não sabe que perdeu uma carta?
-Não.
-Costuma escrever cartas?
-Tenho escrito algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.
Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levan-tou-se para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silêncio e inquietação, continuou sem raiva
-Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e não me despede, nem me aceita, anima-me com os seus bonitos modos. Não me esqueci ainda de Santa Teresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vínhamos os dous com seu marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquela viagem; desde aquele dia a senhora me prendeu. A senhora é má tem gênio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...
-Cale-se, vem gente, interrompeu Sofia erguendo-se também olhando para o lado da porta.
Não vinha ninguém; entretanto, podiam ouvi-lo, porque a voz do Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma.
-Não me importa que ouçam, bradou ele; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora bota-me para fora e tudo acaba. Não, não se pode fazer sofrer assim um homem.. .
-Cale-se, pelo amor de Deus!
-Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a na. guardar nada...
Desatinada, receando deveras que algum criado ouvisse, Sofia levantou a mão e tapou lhe a boca. Ao contacto daquela epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sofia retirou a mão, e dispôs-se a deixar a sala; mas, chegando à porta, parou. Rubião caminhara até à janela, para convalescer da explosão.
CAPÍTULO CIV
SOFIA, depois de estar alguns segundos à escuta, tornou à sala, e foi sentar-se com grande rumor de saias, na otomana de cetim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ela, abanando repreensivamente a cabeça. Antes que ele falasse, Sofia pôs o dedo na boca, pedindo-lhe silêncio; depois chamou com a mão; Rubião e obedeceu.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.