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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— É a senhora quem aluga?

— Não, papai. Mas ele não está. E encarando Ruy Vaz:

— O senhor não mora aqui ao lado?

— Sim, senhora. Tomamos esta casa para um amigo que se casou no Norte. Ele devia chegar até o fim do mês. Anteontem, porém, telegrafou-nos comunicando-nos que resolvera passar a lua-de-mel nas margens do Reno, no castelo de um parente da mulher.

— Nas margens do Reno? — exclamou Gretchen maravilhada.

— Sim, senhora: nas margens do Reno.

— Muito bonito! — disse ela abrindo os olhos serenos.

— Muito bonito. A senhora compreende que dois rapazes num casarão como esse...

— Ah! Si... si... Seu nome? — Ruy Vaz.

Ela repetiu lentamente, sonoramente:

— Ruy Vaz. E o senhor? — Anselmo Ribas.

Gretchen sorriu e, como nada mais tivesse a perguntar, ficou a brincar com uma das tranças.

— Bem; então podemos fazer hoje a nossa mudança? — disse Ruy Vaz.

— Sim, senhor. E, tirando do bolso do avental uma pequena chave, entregou-a ao romancista dizendo com um sorriso adorável: Só tem uma.

— E basta, respondeu ele. Então até já. Deu alguns passos para o corredor, mas voltou-se amável: A senhora...?

E ela, compreendendo, avançou a cabecinha, com um dedo no colo farto:

— Meu nome?

— Sim, senhora. — Carlota.

Anselmo estremeceu lembrando-se de Werther. E, quando estendeu a mão a Carlota, sentiu um frêmito percorrer-lhe o corpo, que vibrou de amor. Carlota! E, saindo, cantarolava apaixonadamente: Salve dimora casta e pura.

Quando entraram no palácio João de Deus, macambúzio, passeava lentamente pelo corredor e o gato ia e vinha miando, a esfregar-se-lhe nas pernas.

— João de Deus, tem paciência, estamos com a corda na garganta, e só tu nos podes salvar.

— Eu? Ah! Seu doutor, eu estou que não posso comigo. É para ir à cidade? — Não, mais perto: aqui ao lado com os nossos trastes.

— Carregar!!?

— Sim, João, tem paciência.

O negro tirou uma ponta de cigarro detrás da orelha e, com um suspiro, foi subindo as escadas vagarosamente. Os dois rapazes desceram ao jardim e Anselmo, encostando-se à barra fixa, suspirou, melancólico, como se previsse desgraças:

— Ah! Meu caro Ruy... essa casa é um perigo.

— Perigo? Perigo por quê? — e o romancista ia catando as rosas e as gardênias do jardim que a erva crescida asselvajava.

— A mocinha impressionou-me. Viste que lindos olhos? Não lembra a Margarida?

— Que Margarida?

— Do Fausto...

— Ora! Tu sofres de amor crônico, crônico e literário. Na primeira mulata que te aparece vês Sacuntala. Já andaste a pensar em uma Haydéa que cozia para o arsenal; viste uma Morna na Praia Formosa; escreveste um conto à Miranda e agora estás suspenso dos olhos de uma Margarida que aluga cômodos. Isso é doença.

— Mas que queres?

— Quero que não me aborreças com os teus amores. Olha, se vais para lá com idéias de idílio, estás arranjado: os alemães são ferozes. Já é tempo de tratarmos da vida a sério.

— Eu vou escrever e vou ver se o Heller monta A Profecia.

— Qual Profecia! Cuida de outra coisa.

— Achas, então, que ele não monta a minha peça?

— Garanto. A literatura dramática, dramática é um modo de dizer e literatura é eufemismo, mas admitindo a expressão, a literatura dramática entre nós está monopolizada por um pequeno grupo. Nem Shakespeare, se ressurgisse, conseguiria impor-se aos empresários. A tua peça há de morrer no arquivo. Cuida de outra Coisa. Que fizeste do romance?

— Não sei. Com o primeiro capítulo João de Deus andou tapando fendas nos vidros, em casa de Dona Ana; Amélia cortou o segundo para fazer papelotes...

— Por que não escreves contos? Tens tantas idéias.

— Mas quanto pode dar um conto?

— Um conto? Nada.

— Então não pagam?

— Não. Se queres ganhar alguma coisa emprega-te como noticiarista, mas vê lá: não digas que fazes literatura.

— Mas isto não é país! — rugiu Anselmo.

— É a terra afortunada, meu amigo. Quem nos governa é um monarca letrado que traduz Petrarca e Byron e comenta Platão no original.

— Mas de que hei de eu viver então?

— Sei lá!

— Mas tu ganhas.

— Ah!, Sim: escrevo um romance de seiscentas páginas e vendo-o por oitocentos mil réis. Achas que vivo...? Que lindas rosas, heim?

— Lindas, concordou Anselmo distraído. Mas tornando logo ao assunto:

— E se eu fosse pedir colocação num jornal...?

— Tens empenhos?

— Não.

— Então, meu amigo...

(continua...)

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