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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— Pois bem; seja aqui mesmo: esta noite deve ser eterna para nós ambos. Inimá, tu me odeias, e tens razão, porque com minhas mãos arranquei sem piedade pela raiz todo esse teu futuro de glória e de amor com que desde a infância te embalavas. Eu te odeio, Inimá, e também com razão, porque de um só golpe vibrado nas trevas me precipitaste do fastígio do poder e da felicidade no abismo do opróbrio e da desesperação. A existência deve ser para nós ambos um odioso peso; devemos um ao outro nosso sangue: fácil e suave nos é agora pagar essa dívida sagrada. Combatamos pois aqui mesmo; porém de tal sorte, que nenhum de nós escape.

— Mas isso, Itajiba, não será talvez possível: de que modo o conseguiremos?

— Nada mais simples. Tu embeberás no teu arco a tua melhor flecha, e eu farei o mesmo; curvá-lo-ás com vigor e apontarás ao meu coração, eu farei outro tanto e apontarei ao teu; darei com o pé dois sinais; ao terceiro dispararemos a um tempo. Por este modo será impossível que ambos não sucumbamos, e eu morrerei satisfeito por ter-te arrancado a vida, e te perdoarei a morte que me dás pela vida odiosa de que me livras.

— Bem que eu quisera antes de expirar morder-te a carne e beber-te o sangue, aceito, Itajiba, aceito o combate tal qual propões.

Gonçalo propusera aquele estranho gênero de duelo, porque ansioso de pôr termo a uma existência que se lhe tornaria insuportável daquele dia em diante, receava que, como sempre lhe tinha sucedido, ainda desta vez a sorte o favorecesse dando-lhe uma completa vitória e prolongando-lhe uma vida que detestava.

Devia ser pavoroso de ver-se aquele estranho combate travado sobre as águas a horas mortas da noite em meio das solidões, tendo por arena uma estreita canoa, e por testemunhas as estrelas, que lhes prestavam escassa luz, e o rio, que lhes devia servir de sepultura. Quem por acaso visse da margem aqueles dois vultos sinistros a vinte passos apenas um do outro em temerosa atitude, com os membros esticados a encurvarem com furor o arco prestes e disparar, e projetando sombras colossais sobre o esteiro límpido das ondas, recuaria de horror cuidando ter visto os espectros da noite a combaterem por cima das águas.

Antes de pôr-se em atitude de combate, Gonçalo, que nos trances arriscados de sua vida nunca se esquecia de sua celeste protetora, beijou com fervorosa devoção a imagem da Santa Virgem, e disposto a morrer encomendou sua alma a Deus. Desta vez porém não se lembrou de tocar no talismã do cinturão, ou de propósito não o quis fazer, pois que deveras desejava morrer.

Itajiba bateu o pé no fundo da canoa o primeiro sinal; daí a um instante o segundo; ao terceiro as flechas voaram dos arcos a um tempo e cruzaram-se nos ares. Inimá, varado no coração, depois de cambalear um instante caiu de cabeça para baixo como enorme surubi escapado à rede do pescador, e a líquida sepultura, que o devorou para sempre, fechou-se de novo sobre seu cadáver remoinhado com lúgubre rumorejo. Gonçalo porém vacilou apenas, e conservouse em pé. Acaso Inimá em tão curta distância teria errado o ponto? ou algum poder sobrenatural e misterioso lhe teria turbado a vista e desviado a seta? Nada disso era crível, e nada disso acontecera. A flecha bem despedida do arco de Inimá voou certeira ao peito esquerdo de Itajiba, mas caiu-lhe aos pés sem penetrar!

Mas como poderia isto acontecer a não ser por um milagre? perguntar-se-á. Milagre ou não, nesse fato teve Gonçalo a mais evidente prova da valiosa proteção da Santa Virgem, por quem sempre tivera a mais viva e fervorosa devoção. A flecha do selvagem encontrou no peito de Gonçalo a grossa medalha de ouro, em que estava esculpida a imagem da milagrosa Santa, e caiu embotada a seus pés. Amparado por aquele escudo celestial o seu corpo nem de leve foi tocado, e sua alma foi salva dos caminhos da perdição.

Será um acaso? ninguém o dirá; foi manifesta proteção do céu, que queria converter um facínora em instrumento da divina misericórdia para alívio dos males da humanidade.

POUSO QUARTO

O ERMITÃO

CAPÍTULO I

OS ROMEIROS

Já vinte anos eram passados depois que tinham tido lugar em Vila Boa os deploráveis acontecimentos que ficaram referidos no começo desta narração. O nome de Gonçalo, que todo o mundo julgava morto, já quase completamente esquecido, apenas existia na memória de alguns velhos, como uma tradição dos tempos passados, que eles se apraziam em referir aos rapazes para lhes servir de exemplo e escarmento dos maus costumes. É verdade que corria como certo entre os habitantes de Goiás que o comandante dos índios selvagens, que havia anos tinham assolado o norte da capitania levando o terror e a devastação até as imediações de Vila Boa, era um branco, que em razão de seus crimes se tinha refugiado entre eles para subtrair-se às perseguições da justiça; mas nem por sombra passava pelo pensamento de quem quer que fosse que o assassino de Reinaldo fosse o terrível caudilho dos Chavantes, que Itajiba fosse Gonçalo, do qual tinham como certo que já nem ossos existiam.

(continua...)

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