Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Na última, na discreta, se alguns pedem para conferenciar particularmente nela, o Bernardo os introduz, retira-se, e com a maior inocência deste mundo, se é interrogado, ignora sempre que haja alguém lá dentro.
E pelos diários e sucessivos conversadores não-dissimulados, e pelos conferenciadores da sala extramuros comerciais a loja do Bernardo é uma caverna acústica, onde se ouvem os ecos de todas as notícias políticas, industriais, bancárias, científicas, literárias, teatrais, et coetra, quer verdadeiras, quer falsas; é o prodigioso óculo de alcance pelo qual se vê tudo, e ainda mesmo o que não existe.
Na loja do Bernardo ouve-se de véspera o que no dia seguinte se lê na Gazetilha do Jornal do Commercio, e nos noticiários das outras folhas diárias, e o muito mais inexato, que a imaginação inventa, e a credulidade espalha.
Em regra o Bernardo deixa falar, e não escuta; e ainda que ouça, não fala, e sou capaz de jurar que ele faria entrar na mesma manhã um depois do outro na sua sala discreta o Ganganelli para conferenciar com alguns dos seus excomungados, e o redator do Apóstolo para explicar a política do Vaticano aos cônegos da capela imperial.
Mas em relação à filosofia positiva das lojas de perfumarias o Bernardo começou a florescer em época de competência e de concurso de êmulas.
As lojas de perfumarias e de cabeleireiros a elas anexos aumentaram em número na Rua do Ouvidor.
O Bernardo teve ao lado direito, e quase defronte, lojas rivais, e além abaixo e acima outras competidoras.
A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias, e, por conseqüência, devia ser a rua mais cheirosa, mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro.
E todavia não o era!...
Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.
Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.
Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Desmarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor era de noite e principalmente das oito horas em diante horrivelmente mal cheirosa.
Época dos tigres.
Então o mais fétido e nauseabundo despejo das casas se fazia em barris não tampados que escravos e negros africanos do ganho levavam ao mar, e a Rua do Ouvidor; de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais freqüentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.
A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de - tigres - pelo medo explicável com que todos fugiam deles.
Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.
A informação é a seguinte:
Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de Janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que freqüentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que era, o viajante tomou nota do fato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:
"Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc., etc.!!!" E é assim que se escreve a história!
O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.
Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca...
Entre parênteses.
Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam às aulas de casaca, e não havia senador nem deputado que se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.
Fechou-se o parênteses.
O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor; quando encontrou um negro que a descia, levando à cabeça um tigre para despejá-lo no mar.
O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que não sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondose desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que, perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.
Ah! que não sei de nojo como o conte!
O tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.