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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Eis pois enfim finda a Turquia: as condições da paz não são conhecidas senão nas suas linhas gerais, mas tanto quanto se sabe, e não se sabe tudo, a Turquia perde a România, a Sérvia, o Montenegro como tributários, perde a Bósnia, perde toda a Bulgária, perde quase toda a Romélia e fica-lhe apenas na Europa uma tira de terra em volta de Constantinopla: o espaço para se plantarem as hortas da cidade, uma migalha de território para os legumes. Na Ásia perde o melhor da Arménia. Como potência europeia findou: é uma potência asiática. Ei-los enfim, depois de tantos séculos, expulsos do continente; mas custou: entre a guerra que os arrojou do Algarve e da Andaluzia até à campanha que os sacode da Romélia e da Bulgária mediaram séculos. A luta começada pelos reis católicos da Península é completada pelo czar e será terminada pelo czar; Constantinopla é deixada simplesmente aos Turcos, como um favor transitório, que bem depressa perderão também; o sultão levará a sua corte, o seu serralho, os seus eunucos e os seus tamborins para Drussa ou para Esmirna, na Ásia Menor, e nunca mais ouviremos falar dele; reentrarão, com toda a inércia do fatalismo, na passividade e no animalismo da vida puramente asiática; esquecerão tudo o que aprenderam na Europa, e na desgraça, prendendo-se mais ao mais puro maometanismo e isolando-se no Alcorão, não serão bem depressa mais do que um povo pitoresco e semibárbaro que se irá visitar, com risco e com fadiga, ao interior da Ásia Menor! Assim acabam os impérios.

Evidentemente, o sultão, os paxás, cederam tudo para conservar Constantinopla: Constantinopla é a vida doce e mole nos haréns de Istambul e nos jaliks do Bósforo: contanto que lhes restem as doçuras do kief, a sesta nos quiosques das Aguas Doces da Europa e as belas circassianas bem educadas no deboche, que lhes importa o mais? A filosofia deste país é a seguinte: um país sacrificado ao egoísmo da sua classe dirigente. O Times chega a afiançar que por um contrato secreto com a Rússia os paxás continuarão a receber os seus rendimentos e os seus tributos especiais, que não serão afectados pelo pagamento da indemnização de guerra. Quem vai pagar é o pobre camponês otomano, tão sóbrio, tão bravo, tão honesto. Sempre a velha, a velha história: aristocracias ligando-se para a exploração das suas plebes!

E que faz, no entanto, a Inglaterra? Arma-se até aos dentes: arma-se com um luxo quase bárbaro: solta dos seus estaleiros fileiras de couraçados; acumula montanhas de torpedos; quer tornar os seus obuses mais numerosos que as areias das praias! Leio todos os dias, por curiosidade, a lista dos preparativos nos arsenais, nas usinas do Governo, nas fábricas de canhões; confunde a imaginação! Os seis milhões de libras votados há um mês estão, diz-se, quase gastos – e tudo isto para quê? Para ir à conferência. Está fazendo a sua toilette da conferência. Com efeito, como ninguém sabe as condições da paz, todo o interesse está na conferência. Em que prejudicam essas condições a Inglaterra ou a Áustria? Mistério. Há-de saber-se amanhã, ou além. E é então que a dificuldade começa, se se vir que elas são incompatíveis com os interesses, com a dignidade, com a mesma segurança da Inglaterra. Duas das condições que decerto seriam um motivo de conflito, a entrega da frota turca aos Russos e a hipoteca do tributo do Egipto ao pagamento da indemnização da guerra, diz-se que foram suprimidas. Foram? Alguns jornais duvidam. Assim a impaciência de saber verdadeiramente as verdadeiras condições desta paz é ansiosa, cheia de pânico. Da sua publicação sairá uma nova guerra? Elas devem ser, com efeito, bem extraordinárias, visto que a Rússia as tem conservado tão secretas e que se está preparando como para uma outra campanha: mobilização de corpos de exército, encomenda de torpedos, fabricação de canhões, tudo isto prova que o czar conta com a oposição da Inglaterra e talvez da Áustria, quando sabidas as condições da paz, e que esta preparado para se bater em sua defesa.

(continua...)

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