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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

O dia estava escuro e ventoso. Ao lado, na Egreja, tocava a finados pela mulher do Dr. Marques, e aquelle negrume d'inverno, o dobre do sino, pareciam augmentar a melancolia da separação.

Arthur, commovido, repetia a cada momento que era só por dois mezes :

— Mal comece o calor da primavera, cá estou de volta.

E era sincero, tomado d'uma saudade por aquelIas affeições simples que deixava, pelo seu quarto, que durante esses longos annos elle povoára de sonhos e d'imaginações queridas.

Ás duas horas, o moço do char-à-bancs veio buscar o bahú e Rabecaz appareceu. Ia acompanhar Arthur á estação, e conservava-se á porta da gala, de chapéu na mão, erecto, muito digno na presenga das senhoras,

— Adeus, tias, adeus !

Então, n'um romper de soluços, Arthur foi dos braços de Ricardina para os de Sabina.

— É por pouco tempo, é por pouco tempo — balbuciava.

— E vae bem rocommendado, exoellentissimas senhoras — disse Rabecaz, curvando-se.

E Arthur sahiu com os olhos arrazados de lagrimas.

No pateo, encontrou o Albuquerquezinho, de braços abertos :

— Boa viagem, Arthurzinho. Fique deseangado, eu cá vigiarei. Ha-de haver ordem a bor do

No meio da estrada, um tirante que se quebrou atrazou o carro. Um vento triste gemia entre os pinheiraes ; já começavam a cahir gotas de chuva. Arthur ie calado, ainda commovido, e o Rabecaz fumava sombriamente, com a chapeleira d'Arthur entre os joelhos.

Mas á vista da estação, da machina que já so prava, voltada para Lisboa, uma alegria tumultuosa invadiu Arthur: já no wagon, ria, de nervoso, sentindo a molleza do assento, estofado de casimira suja, ceder confortavelmente, como um antegozo da vida em que se ia installar agora. Ã portinhola, Rabecaz continuava os seus conselhos : que fosse ás hespanholas ! Que gozasse !

de vez em quando, contemplando-o oom amargura :

— Seu felizão . — rosnava.

A locomotiva silvou — o comboio rolou.

— Não se esqueça da boquilha ! — gritou-lhe ainda o Rabecaz,

No Entroncamento, depois de cear, Arthur embrulhou regaladamente os joelhos na manta e accendeu o seu charuto com uma felicidade immensa,

O comboio de Madrid, atrazado, acabava de chegar : o trem ia partir. Fóra, chovia, ventava forte, e Arthur seguia com os olhos uma lanterna avermelhada que errava, do lado dos raiZg, na noite tenebrosa, quando a porta se abriu vivamente, e um sujeito esbaforido apparecen, atirando para o assento uma maleta envernizada, um rolo de plaids, outro de bengalinhas, um cesto atado com fitas de sêda azul e uma almofada de folhos. Vinha abafado n'uma pelliça, e a alta gola erguida, o gorro de pelles sobre os olhos, apenas deixavam vêr uma face rosada c nutrida e uma bella barba alourada.

Arthur suppol-o logo estrangeiro — mas o in-

dividuo, depois de ge installar, cumprimentou cortezmente, dizendo :

— Que terrivel noite !

— Terrivel — concordou Arthur.

Julgou-o então um diplomata, vindo de Madrid ou de Paris. Examinava-lhe a rica pelliça, a charuteira com uma coroa de prata em relevo, d'onde escolhia um breca, as luvas muito grossas, d'uma pelle aspera e branca, e pensava, fascinado, que aquella figura digna atravessara salões reaes, rogara personagens historicos.

— P'ra Lisboa, creio eu ? — perguntou-lhe o sujeito.

— Sim, vou p'ra Lisboa — disse Arthur.

— Que tal S. Carlos este anno

Arthur cuspilhou uma pellicula de tabaco e córando um pouco :

— Este anno . . . Este anno, muito bom.

— Valha-nos isso — disse o individuo.

E ficou immovel, com as palpebrag cerradas, fumando com beatitude.

Arthur receou logo outras perguntas sobre Lisboa, familias fidalgas, musicos, e não querendo revelar ignorancia plebeia, ia affectar uma somnolencia fatigada, repoltreando-se no seu canto — quando viu o sujeito desapertar as fitas do cesto e tirar para o regaço um cãozinho amarello, que lhe pareceu semelhante a um sapo, de focinho negro e achatado, vincado de duas rugas velhas, e olhos redondos e estupidos.

— Tem tido uma jornada trabalhosa — disse o sujeito.

— Tem vindo no cesto

— Desde Paris, pobre John !

Levou-o aos labios como uma cousa preciosa e santa, e deu-lhe sobre o ventre macio e liso beijinhos chilreados. Chamou-lhe ainda perda, anjo. Acalentou-o gob a pelliça, contra o coração. E exclamava compenetrado para Arthur :

—É um amor ! — E depois d'uma fumaça : —É para a Snr. a Marqueza de Folhes. . . Conhece talvez Arthur disse baixo :

— Sim , . .



(continua...)

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