Por Eça de Queirós (1900)
Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos - e logo perdoa por conta e amor das façanhas próximas. Depois com a bengala ab ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopéia, mais carregada, mais terrifica - assombrando o sensível homem, estacado rente da cômoda, sem mesmo pousar a infusa d'água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam... O Casco! O José Casco das Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar - "Morra, que é marrão!... E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel como se ambos o escoltassem - e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir...
- Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atônito:
- Mas o Sr. Dr. disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
- Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda.O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento - porque com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
- Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde e do Alvaralhão, para misturar.
O Bento, com um trêmulo suspiro da emoção atravessada, enchera a bacia, estendia as toalhas. Depois, gravemente:
- Pois, Sr. Dr., temos esse andaço nos sítios! Foi o mesmo que sucedeu ao Sr. SanchesLucena, na Feitosa...
- Como, ao Sr. Sanches Lucena?
O Bento desenrolou então uma tremenda história trazida à Torre, durante a estada do Sr Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Críspola, o Rui carpinteiro, que trabalhava nas obras da Feitosa. O Sr. Sanches Lucena descera uma tarde, ao lusco-fusco, à porta do Mirante, quando passam na estrada dois jornaleiros, bêbedos ou facínoras, que implicam com o excelente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Sr. Sanches, com paciência, aconselhou os homens que seguissem, não se desmandassem. De repente um deles, um rapazola, sacode a jaqueta do ombro, ergue o cajado! Felizmente o companheiro, que se afirmara, ainda gritou: - "Ai! rapaz, que ele é o nosso deputado!" O rapazola abalou, espavorido. O outro até se atirou de joelhos diante do Sr. Sanches Lucena... Mas o pobre senhor, com o abalo, recolheu à cama!
Gonçalo acompanhara a história, secando vagarosamente as mãos à toalha, impressionado:
- Quando foi isso?
- Pois disse ao Sr. ...... Quando o Sr. Dr. estava em Oliveira. Um dia antes ou um dia depois dosanos da Sra. D. Graça.
O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois com um risinho incerto e leve:
- Enfim, sempre serviu de alguma coisa ao Sanches Lucena ser Deputado por Vila-Clara...
E já vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a noite na Vila, a desabafar com o Gouveia) - de novo se voltou para Bento, que arrumava a roupa:
- Então o bêbedo, quando o outro lhe gritou "Ai, que é o nosso deputado", caiu em si, fugiu, hem?... Ora vê tu! Ainda vale ser deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pela menos inspira mais respeito que descender dos Reis de Leão!... Paciência, toca a jantar.
Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o Alvaralhão, Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela vez primeira, na história de Santa Irenéia, um lavrador daquelas aldeias, crescidas à sombra da Casa ilustre, por tantos séculos senhora em monte e vale, ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado, diante dos muros da quinta histórica!... Contava seu pai que, em vida do bisavô Inácio, ainda desde Ramilde até Corinde, os homens dobravam o joelho nos caminhos quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E por quê? Porque ele não se desfalcara submissamente das suas rendas em proveito dum façanhudo! - Em tempos do avô Tructesindo, vilão de tal atentada assaria, como porco montês, numa ruidosa fogueira, diante das barbacãs da Honra. Ainda em dias do bisavô Inácio apodreceria numa masmorra. E o Casco não podia escapar sem castigo. A impunidade só lhe incharia a audácia: e assomado, rancoroso, noutro encontro, sem mais falas, desfechava a caçadeira. Oh! não lhe desejava um mal durável, coitado, com dois filhas pequeninos - um que mamava. Mas que o arrastassem à Administração, algemado, entre dois cabos de polícia - e que na triste saleta, donde se avistam as grades da cadeia, apanhasse uma repreensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito seco, muito esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios tortuosos - pois que não era deputado, e que, com o seu talento, o seu nome, essa espantosa linhagem de avós que edificara o Reino, carecia o prestígio dum Sanches Lucena, o precioso prestígio que suspende no ar os varapaus atrevidos!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.