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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

O sargento-mor das antigas milícias era um potentado, imediato na jerarquia ao capitão-mor, com quem por igual se repartiam os lombos e os respeitos sociais. O baque da monarquia absoluta, esmagando com os privilégios o acatamento que os privilegiados incutiam, respeitou o sargento-mor de Soutelo. Os povos reverenciavam-no no teor antigo e testemunhavam seu acatamento presenteando-o com os lombos dos cevados, tal e qual como nas ominosas eras em que o sargento e o capitão-mores representavam, no aparelho gástrico do absolutismo, um dos intestinos mais importantes - o recto, se quiserem.

Tomásia era um rapariga desempenada e com olhares derretidos. De entendimento era escura, como quem não sabia ler, nem tivera, alguma hora, desgosto de sua ignorância. Tinha vinte e seis anos e nunca estivera doente. Nunca tomara chá nem café. Almoçava caldo de ovos com talhadas de chouriço. O Sol, ao nascer, nunca a surpreendeu em jejum. Trabalhava de portas adentro com as criadas: fazia as barrelas, fabricava o pão, administrava a salgadeira e vendia os cereais e as castanhas. Regularmente calçava soquinhas debruadas de escarlate e sarapintadas de verde. As meias eram de lã ou algodão azuis; mas não usava ligas, de jeito que as meias caiam em refegos à roda do tornozelo - o que não era feio. Nas romarias, calçava sapato de fitas e trazia chapéu desabado com plumas brancas. Os pulsos eram duma cana só, como lá dizem para exprimirem a força. Cada palma de mão parecia uma lixa; e elogiar-lhe o cuidado das unhas seria adulação indigna da minha sinceridade. Dentes nunca os vi ricos de esmalte. Limpava-os com erva do monte, que lá chamam mentrasto; e as pomadas das suas opulentas tranças louras eram a água cristalina do tanque em que ela mergulhava a cabeça todas as manhãs. Sentava-se depois à sombra dum castanheiro, nos dias festivos, a pentear-se, e era belo vê-la então coberta de seus cabelos até à cintura, que moura mais linda a não sonharam poetas, em orvalhadas de S. João, alisando as madeixas com pente de ouro.

Assim foi que eu a vi quando cheguei à janela do quarto em que pernoitara na casa do sargento-mor, descendo eu duma feira onde fora vender um macho e comprar bezerros para criação.

IV

O pai de tomásia, erguia a toalha da mesa, onde almoçámos, às sete horas da manhã, sopa de ovos, salpicão, batatas ensopadas com toucinho e toucinho cozido com batatas, disse-me que sua filha estava casadeira e ele disposto a casá-la comigo, se eu quisesse. Antes que eu respondesse, inventariou os seus cabedais, o valor do património dos seus quatro irmãos padres, os quais estavam presentes e unanimemente disseram que tudo deixavam por escritura a sua sobrinha.

Pedi espera de alguns dias para responder; e a inst6ancias de todos, passei aquele dia em Soutelo.

Tomásia, que tinha almoçado na cozinha, segundo o seu costume, quando havia hóspedes em casa, apareceu-me, meia-hora depois do almoço, perguntando-me se queria comer uma tigela de requeijão e beber um pichel de vinho verde.

Gostei desta patriarcal franqueza e desci à cozinha, onde encontrei sobre a mesa do escabelo, adorno da lareira, uma tigela vermelha vidrada com requeijão e um pichel reluzente de estanho a transbordar de espumoso vinho verde. Tomásia sentou-se do outro lado e comeu e bebeu como a filha de Labão com Jacob.

Conversámos nestes termos também patriarcais:

- Quantos anos tem a Sra. Tomásia? - perguntei.

- Vinte e seis, feitos pela Santa Luzia.

- Muito bem empregados. Admiro que vossemecê não esteja ainda casada!

- Ainda não é tarde.

- Também digo: mas quem é tão bonita como a Sra. Tomásia onde quer acha um noivo.

- Sou sã e escorreita. Deus louvado. Se lhe pareço bonita, isso é dos seus olhos. Coma uma colher de requeijão, e beba, que o vinho está muito fresco.

- Está excelente, mas eu não posso mais.

- Então fraco homem é!

- Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoçar leves de café ou chá.

- Credo! Vossemecê bebe chá por almoço?!

- Pois então!

- Ora essa! Cá em casa há chá, que o compra meu tio padre João, mas é para as dores de barriga. À minha boca nunca ele foi, em boa hora o diga!

- As comidas fortes dão-se bem com o seu estômago?

- Ora se dão! Nunca estive doente dois dias a fio.

- Costuma cear?

- Pudera não! Almoço, janto, merendo e ceio: é o costume cá de casa; e vossemecê?

- Eu começo agora, desde que vim para a aldeia, a comer melhor; mas não pude ainda habituar-me a

cear.

- Pois quem não ceia, toda a noite rabeia: é ditado dos velhos. Então não come mais?

- Mais nada.

- Pois se quer vir daí à casa da eira, eu vou lá ver o que fazem os moços. Isto de servos, se a gente lhe tira os olhos de cima, pegam a mandriar que não fazem nada. Quer vir?

- Com muito gosto.

Tomásia encheu um grande cabaz de fruta e uma cabaça de vinho.

- Levo isto aos moços - disse ela - porque eles, quando eu chego à sua beira, estão sempre a olharme para as mãos.

(continua...)

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