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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Palmira, como se um áspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera enjaulada. D. José de Noronha tremia.

"E eu continuei, voltado contra ele: "A infâmia é assim; tem esses desmaios de cobardia, que desarmam o ódio e levariam à piedade se o nojo não estivesse aquém da virtude da compaixão. Sr.a D. Palmira, aqui tem um paladino, que a não há-de deixar corar sem desforço diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege às suas ordens, se o pudor lhe não permite entrar no carro do amante. Enquanto ao Sr. D. José de Noronha, saia, e espere-a na rua."

"Palmira fugiu da sala em arremetidas de louca, D. José saiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu caí extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer ali afogado de congestão de sangue no coração. Daí a momentos ouvi o gritar estridente de Palmira e um grande reboliço no pátio. Quis debalde levantar-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados.

"Abaterei agora a linguagem trágica do sucesso para te narrar o que se passava no pátio.

"O Tranqueira, posto de plantão, como ele dissera, não saiu da saia de espera, ou do próximo corredor. Momentos antes da saída de D. José, descera ele ao pátio. Quando o aturdido infame ia passando, saiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalariças. Avizinhou-se de D. José, meteu-lhe a luz à cara e disse-lhe: "O fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça." Disse, depôs a lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnete, levou-o de borco sobre a cisterna do depósito de à gua para os cavalos e baldeou-o dentro exclamando: "Há-de ir fresco, há-de ir fresco, seu alfacinha!" Os outros criados ainda quiseram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jóquei de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido por fúria digna de melhor adversário, O desgraçado caíra de cachapuz e lograra logo romper com a cabeça à flor de água; mas do pescoço abaixo ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, à mingua de pega onde poder fincar as unhas. O instinto da vida vencera o da vergonha. D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas-noites, fora para a cavalariça raçoar os cavalos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmira, a tempo que o jóquei se erguia do pontapé que o desintestinara, para, muito a custo, acudir ao amo.

Desceu Palmira ansiada ao pátio, no momento em que o eleito de sua alma, na boca da cisterna, sacudia as bicas de água e tiritava estalejando as maxilas.

"Fulminou-a o ridículo! Só o ridículo podia soçobrar aquela alma de têmpera,feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para o escuro do pátio. Nem a comiseração lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a cobardia naquela hora. Odiou-se talvez a si própria. Não sei. Avisaram-me que ela estava prostrada, e sem sentidos, no lajedo do pátio. Dei ordem às criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando comigo o criado que me vira nascer, o único homem diante de quem eu podia chorar.

XIX

"No dia seguinte, mandei de Sintra o criado a casa, informar-se dos sucessos decorridos... Querenas tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquela minha noite... Passei-a na ida para Sintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades morais ia atrofiada. Volteavam em redor de minha inteligência uns corpos, ora negros como o recesso dos abismos, ora ígneos como as fitas dos coriscos. Nem a memória de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconsertadas. Era a febre, a procela do sangue encapelada na cabeça. O criado teve o instinto de compreender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavalo, sem dar tento da vertigem.

"Contava-me ele depois que eu, a intervalos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabelos e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavalo.

"Aqui tens a minha noite: não tenho outras memórias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lágrimas, e chorei por muito tempo.

"O criado partiu de Sintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto que o escudeiro lhe dera, escrito por Palmira. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ela, ao sair de minha casa, levava consigo. Deviam ser vestidos e jóias. Palmira, portanto, havia saído na manhã daquele dia.

(continua...)

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