Por Coelho Neto (1890)
Pensam vocês que esse Fontainha existe? Puro sonho. Nunca houve na Bocaina onça cotó nem porcos do mato, mas para que o havemos de vexar com o sarcasmo da nossa incredulidade? É o prazer do pobre homem contar aventuras terríveis: que matou, que esfolou, que fez e aconteceu... Conta com graça, que mal nos pode vir disso? Bem sei que nos transtornou a vida, mas não me revolto, lastimo-o. Mais do que nós vai ele sofrer. É um tropical influenciado vivamente pelo sol, homem de miragens, visionário — acompanharia D. Quixote de bom grado, suportando penúrias e tormentos com mais entono heróico do que o próprio cavaleiro andante.
É preciso aceitá-lo tal qual ele é. Eu, que o conheço, quero que vocês o tratem com acatamento. Agora, por exemplo, ele está como um enfermo, sofre porque começa a entrar no real, vê que não pode cumprir a sua palavra e espantase de a haver dado e intimamente está, talvez, perguntando a si mesmo: "Mas como fui eu prometer a estes rapazes mobília e manutenção se estou a tinir?" E sabem lá vocês o sofrimento que isto é? Nada ganhamos com mau humor. Temos de sair, saiamos em paz e alegres para que o pobre Crebillon não sofra.
— E não tenho queixa dele, disse o Toledo.
— Nem eu, ajuntou Anselmo.
— É um cerebrino, que culpa tem, coitado? Diz que vai amanhã aos porcos na Bocaina... Com certeza não tem no bolso um tostão para ir à cidade. Conheçoo... Acendeu um cigarro e, só então, deu pela demora de João de Deus. E João de Deus que não vem!
Da sombra partiu, muito lenta, a voz enfraquecida do negro.
— Estou aqui.
— O rapaz, andas misterioso. Então?
— O homem aluga por oitenta mil réis a sala da frente e um quarto grande. — E as condições?
O negro baixou os olhos e balbuciou:
— Não tem, não, senhor.
— Dinheiro adiantado ou carta de fiança?
— Não perguntei não, senhor. — Pois sim.
Anselmo, que não tirava os olhos do negro, vendo que ele palpava a testa e apertava-a, perguntou:
— Estás sentindo alguma coisa, João?
— Eu? Vou amanhã para a Santa Casa, resmungou, retirando-se lentamente, com a mão à fronte.
— Que diabo terá João de Deus?
— Ora! Que há de ser?
CAPÍTULO IX
Na manhã seguinte, fresca e luminosa manhã, depois do banho, o último sob o jorro copioso da calha que rivalizava com Paulo Afonso, Ruy Vaz e Anselmo, vestindo as calças menos surradas, foram bater à casa vizinha. Quem lhes havia de aparecer? Uma mocinha loura, alva e franzina. Duas rosas ornavam-lhe as faces duma pele acetinada e tênue, sob a qual como que se via o sangue circular em retículas azuis. Os olhos, duas turquesas, pensativos sob as compridas pestanas curvas, tinham uma entristecida melancolia e pareciam lavados em lágrimas. Os cabelos eram de ouro e brilhavam em duas tranças fartas, o colo cheio ondulava e a voz era lenta e doce como o som das citaras.
Descerrou a pequenina boca fresca e sangüínea e, firme, com o seu avental imaculado, perguntou: "Se queriam alguma coisa?" Anselmo, arroubado, já cantarolava o:
Salve dimora casta e pura!
Foi Ruy Vaz, mais frio e resistente ao amor, quem respondeu:
— Sim, senhora. Desejamos ver os cômodos anunciados.
Gretchen acenou de leve com a formosa cabeça, onde havia mais ouro do que em todo o Reno, no tempo dos deuses, e grave, em passo sutil e airoso, chegou a uma porta, deu volta à chave convidando, com um gesto cheio de divina majestade, a entrarem. Ruy Vaz passou primeiro e Anselmo seguiu-o com o coração abrasado. Não viu o estreito corredor sombrio, nem o quarto acanhado, nem a sala que tinha o papel desprendido, voando ao vento e buracos pelos cantos e placas de zinco pregadas no soalho esfregado. Ruy Vaz examinava como um mestre de obras, elevando os olhos da barra ao teto, de onde a pintura esborcinada, escorchada se destacava em lâminas. Anselmo via tão só a face branca e as rosas, os olhos azuis e as tranças, a boca breve e rubra e o colo que arfava. Estava longe, andava em
Goethe, pelo Fausto...
Salve dimora casta e pura...
Ruy Vaz trincou o bigode e, pondo os olhos negros no rosto puríssimo da moça, ponderou, sorridente:
— É caro...!
Ela, muito séria, encolheu os ombros e foi abrir as janelas. O sol entrou iluminando a sala, pondo uma grande alegria nos aposentos e brilho nos cabelos de Gretchen. A aragem fresca levou o cheiro de umidade deixando um leve aroma de rosas.
— Caro não é, disse Gretchen, como espantada.
— Não é, concordou Anselmo.
— Com café de manhã...? — aventurou Ruy Vaz e ela, sorrindo, com muita vivacidade e um fulgor novo nos olhos:
— Si, si... com café de manhã.
— E o banheiro? — perguntou o romancista.
— Si, disse ela, no quintal; banheiro do chuveiro; elevou o braço e fez graciosamente o gesto de quem puxa uma corda.
— E as condições?
— Como queira. Não faz questão.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.