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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Instantaneamente outros fachos se acendem, e vêm alumiar com luz sinistra aquele medonho e miserando quadro. Ainda abraçados os dois infortunados irmãos se estorciam no chão nas últimas convulsões da agonia. Alguns vultos entram de tropel na taba gritando todos a um tempo; o grupo se condensa, reina a maior agitação e forma-se um tumulto infernal, que vai crescendo e se propagando de momento a momento. Em poucos instantes toda a tribo dos Chavantes se achava apinhada em volta daquele sítio fatal bramindo furiosos como um bando de javardos em torno do caçador imprudente que entre eles se envolveu. No meio de todo aquele tumulto e confusos alaridos o desgraçado Itajiba enfim pôde compreender que de um só golpe tinha matado Guaraciaba e seu irmão Anhambira, que ele não conhecia, mas de quem ela muitas vezes lhe falara com ternura. Que palavras poderiam exprimir sua desesperação neste trance cruel? Cego, desatinado e louco abre caminho com os robustos braços através da multidão, que se apinhava em torno dos dois cadáveres; quer arrancar a seta que os traspassou, e com ela mesma varando o próprio coração misturar seu sangue ao de suas inocentes e infortunadas vítimas; repelido porém pela turba, atira-se à toa como um possesso pelo primeiro caminho que se lhe oferece, sem destino e sem consciência do que faz.

Como um condenado escapado ao suplício, a boca entreaberta e arquejante, os olhos desvairados, os passos precipitados e vacilantes, passa como um espectro por entre as turbas atônitas: já está longe das tabas, mas caminha ainda, até que esbarra com o leito do rio, que diante dele desdobra seu esteiro límpido e profundo; mas nem isso o detém em sua desatinada carreira, e vai como um ébrio em delírio arrojar-se na torrente.

— Quem vai lá? brada de um lado uma voz áspera e breve.

Itajiba parou sobressaltado, e olha para o lado donde partira a voz: uma canoa estava amarrada à margem, e sentado à popa acha-se um vulto de porte altivo.

— Ainda há pouco, responde Itajiba, eu era Itajiba, o valente e glorioso chefe dos Chavantes; agora sou Gonçalo o foragido!

— Itajiba ou Gonçalo, como quer que te chames, não vás procurar a morte nas águas desse rio, que te repelirá de seu seio. Tens estreitas contas a ajustar comigo; tua vida me pertence.

— E tu quem és, que assim ousas falar-me?

— Pois já não conheces Inimá?

— Inimá!

— Sim, Inimá, esse que cuidaste atravessar com tua flecha no braços de Guaraciaba, mas que ainda aqui te espera para ultimar sua vingança.

— Cobarde! ah! quanto folgo de encontrar-te aqui! bem vejo que foste tu que urdiste a trama infernal que me perdeu...

— Pois pensavas acaso que eu de bom grado consentiria que tu, vil forasteiro, lograsses tranqüilamente a ventura que o céu me tinha destinado, nos braços daquela que desde a infância amei? nunca te dei direito de fazer de mim conceito tão mesquinho.

— Nem eu tão pouco consentirei que sobrevivas mais um instante à tua atroz perfídia...

Dizendo isto Itajiba furioso ia-se precipitar sobre Inimá; este porém com voz calma e firme o atalha:

— Acalma-te, Itajiba: estamos a sós, e sobra-nos o tempo. Entra nesta canoa, e vamos sós e bem longe daqui, seja onde for, tendo unicamente por testemunhas o céu, as florestas e este rio, decidir o nosso pleito.

Onde e como quiseres, contanto que esta noite mesmo decidamos a nossa sorte, diz Gonçalo com impaciência, e salta na canoa, que logo após vai vogando serena pelo Tocantins abaixo.

A noite já ia alta, sem luar, mas límpida e estrelada. Nenhum vento agitava o tope escuro dos arvoredos, que imóveis e silenciosos se miravam no espelho das águas ao longo de uma e outra margem, e o largo veio do rio serpeando majestoso e plácido por entre as selvas refletia no profundo regaço os mil fulgores do firmamento como vasta charpa azul matizada de luzentes pedrarias. Com o profundo silêncio e a paz solene e inalterável daquelas solidões formavam vivo contraste as cruéis e violentas tempestades que agitavam a alma dos dois miserandos rivais. Sombrios e taciturnos, sentados em face um do outro, Inimá à popa , e Itajiba à proa, abandonaram à mercê da torrente a canoa, que por largo tempo foi boiando sem remos serena e silenciosamente até sumir-se a grande distância das habitações dos índios. Ambos tinham tocado ao supremo grau do infortúnio; para ambos a existência se tinha tornado um flagelo contínuo, um tormento insuportável, e só viviam de ódio e desesperação. A ambos torturava igual ânsia de ao mesmo tempo esmagar o seu rival e de expirar a seus golpes: quereriam morrer estrafegando-se mutuamente em um abraço de panteras. Já largo tempo tinham vogado quedos e taciturnos à mercê das águas quando Inimá rompe o silêncio.

— Itajiba, a noite avança e se o sol ainda nos encontrar ambos vivos sobre a terra e em face um do outro, de pejo e horror pode voltar-nos o rosto e recuar a esconder-se de novo no seio do oriente. Cumpre que um de nós não veja mais a face do sol.

— Eu me coloquei à tua disposição, volve-lhe Itajiba levantando-se e empunhando as suas armas. Onde queres combater? Aqui mesmo dentro desta canoa, ou em terra?

— Onde quiseres.

(continua...)

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