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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

E não se admirem de semelhante paciência em homens, pois que havia jovens vaidosos, afeminados tafuis, que dormiam com os cabelos em papelotes, como as senhoras às vezes praticam!...

O Desmarais achava tudo isso muito ajuizado, porque vendia óleos, banhas e cosméticos a fartar; e, ainda mais, quando a moda foi modificada pela estrada da liberdade, que separava os cabelos até o alto da cabeça em duas partes principais, sendo a do lado esquerdo desproporcionalmente menor, exceto nos tafuis afeminados e de pior gosto, que usavam a divisão dos cabelos em duas partes iguais, como as senhoras em alguns penteados.

E fiquem sabendo os mancebos de hoje, a estrada da liberdade exigia perfeição matemática em sua linha reta, e bem visível a largura relativa da estrada, de modo que esta era em muitas cabeças não só aberta pelo pente, como ainda construída pela navalha do cabeleireiro.

Os cabelos à mal-content ou à escovinha começaram a usar-se naquele mesmo tempo; mas tiveram pouca voga.

Depois de 1850, cansado de trabalhar, e já então com a antiga preferência conferida à sua loja de perfumarias e de cabeleireiros habilmente disputada por competidoras iguais e com o prestigio da novidade, o Desmarais não querendo ser João Fernandes onde fora César, também deixou o comércio; mas recolhendo-se à vida privada, não quis deixar o Rio de Janeiro.

Em regra geral os negociantes franceses, estabelecidos no Brasil, ou pelo menos no Rio de Janeiro, mais conhecido nosso, têm aqui as cabeças que calculam, os braços que trabalham, infatigável atividade que duplica o tempo, e zelosa economia que multiplica o capital, mas não arredam da França a alma que lembra, o coração que ama e a esperança de gozos de futuro no seio da pátria. Não lhes quero mal por isso. Preferem a todos os países o seu país. Se isso é pecado, eu por mim sou pecador como eles.

Mas sempre é doce e grato à terra hospitaleira ver prender-se a ela o estrangeiro que a achou donosa e como boa amiga, ou amorosa mãe adotiva.

Simpática exceção (e nem é a única) daquela regra francesa, a família Desmarais ficou, ou toda ou quase toda, no Brasil, e é digna dele.

E o velho, que foi o Desmarais irmão mais moço, lá está hoje infelizmente menos afortunado, mas sempre ativo, suave, agradável e brincador em doce ninho no bairro de S. Domingos, cidade de Niterói.

Já é septuagenário o simpático Desmarais, robusto, porém ativo, diligente, alegre e espirituoso conversador; se fosse mulher, estaria em seu direito dissimulando quinze anos.

Os únicos entes que com justíssima razão poderiam, se não fossem mudos, dizer mal e muito mal dele, seriam os peixes daquele mar que banha o bairro de S. Domingos e de cara.

Lá, em horas oportunas, que magistralmente conhece e determina, o velho Desmarais, de caniço ou de linha em punho, e com o saco ou embrulho de estudadas iscas ao lado, vai à ponte das barcas, às pedras do Gragoatá, ou a outros sítios de sua escolha, e anzóis ao mar, espera com verdadeira paciência de pescador, e como o devoto mais fiel de S. Pedro o fruto das iscas que lança na água.

O mais famoso entre os amadores da pesca em Niterói, ele ainda nos dias menos felizes tem o segredo de recolher boas corocorocas; mas é curioso vê-lo jubiloso, quando lhe traz o anzol alguma garoupinha, e entusiasmado ao pescar um robalo.

Este amor de pescaria deliciando em sua velhice o Desmarais, célebre iniciador das lojas de perfumarias na Rua do Ouvidor, quem sabe, se não é mágico e benéfico influxo dos espíritos das primitivas e belas pescadoras do mar, defronte do qual começava a Rua de Aleixo Manoel?...

Ainda uma última recordação da casa de Mr. Desmarais: foi dela, onde era caixeiro, que saiu doutor de borla e capelo em perfumarias o Sr. Bernardo Ribeiro da Cunha, para estabelecer loja própria, que todos conhecem e que ficava do mesmo lado e muito vizinha daquela.

Que de tal pai tal filho se esperava.

Não quero ocupar-me das perfumarias, dos cabeleireiros e dos mil artefatos e artifícios da loja do Bernardo, porque ou por incontestável direito de idade, ou por magicaturas da casa, ele ainda não se dignou envelhecer, e, continuando a florescer, não entra no número dos representantes do passado.

Mas a loja do Bernardo tem uma condição especial que devo mencionar, como informação deixada a futuros indagadores de costumes e de curiosidades do nosso tempo.

A loja consta de sala de perfumarias, sala de cabeleireiros e de cortar cabelos, e sala instituição extracomercial, discretamente recolhida no fundo da casa.

Na primeira sempre e às vezes na segunda é constante e livre e como que pública a freguesia de conversadores políticos, economistas, diplomatas, etc., e o Bernardo não precisa dizer quem nelas está, porque todos vêem.

(continua...)

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