Por Eça de Queirós (1940)
Os negócios de cartas têm-se reproduzido com uma tal abundância que os jornais pedem a intervenção do parlamento e a criação de leis severas. Mas a melancolia do caso, quem jamais o diria?, é que as criadas tinham por associados, imaginem quem... Não, não podem imaginar! Tinham por associados os próprios amantes das amas. Sujeitos elegantes, de formas robustas e fisionomia simpática (tudo o que reclamam os compêndios de retórica em Portugal para se ser um bom orador), tinham por profissão impressionar senhoras de temperamento sentimental, provocar uma correspondência picante e deixar, por descuido, cair um bilhete diabólico nas mãos subtis de uma criada de quarto: esta reclama da senhora o preço do bilhete (havia uma tarifa: simples platonismo, quinhentas libras; rendez-vous, mil libras; alusões ao facto consumado, preços variáveis e em proporção com a fortuna da frágil esposa) e, obtida a soma, partilha-a com o sedutor. É simples e prático. As senhoras sensíveis andam aterradas; será impossível, de ora em diante, o começar uma intriga poética antes de se ter a certeza que o cavalheiro não pertence a esta terrível sociedade, ou que, pelo menos, os seus preços são razoáveis. Não há fortuna que baste – se as senhoras têm de pagar por vinte e cinco contos cada bilhete inflamado. A ternura torna-se uma coisa tão cara, sobretudo a ternura ilegítima, que apenas as esposas dos mais poderosos banqueiros da Europa estão habilitadas a poder amar. E o que é mais curioso é que aos que pedem leis severas contra esta inteligente especulação sentimental respondem os homens práticos que diminuir o perigo do escândalo é aumentar implicitamente o pecado – e que esta terrível associação, sendo da mais alta moralidade indirecta, em lugar de ser perseguida deve ser favorecida. Pobres senhoras sensíveis!
XIII
Londres, 5 de Março [de 1878]
Finalmente ontem, pelas três horas da tarde, em San Stefano, a paz entre a Turquia e a Rússia foi assinada. Ontem era na história imperial da Rússia um dia ilustre: era o aniversário da emancipação dos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um refinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar, por uma assinatura num papel, o fim do Império Turco. Devia ter sido decerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperbólico ouvindo debaixo da janela do Palácio de Inverno milhares de vassalos cantarem, com a cabeça descoberta, como no respeito de uma celebração religiosa, o hino do czar – o pensar que no dia em que fazia vinte e três anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito, ele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as províncias perdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destruía o Império Otomano, humilhava grandes potências e ganhava um lugar entre os grandes conquistadores do século. Nesse momento verdadeiramente pôde crer na missão da Santa Rússia.
De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manhã, o entusiasmo tomou as proporções de um delirium tremens. O imperador levou três horas a ir do palácio ao teatro, no meio de uma multidão fanática uivando o hino imperial, ébria de orgulho nacional, aclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o grão-duque Nicolau passou uma revista de cerimonial às tropas, e os arautos anunciaram, ao som das músicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares, champanhe e hurras pela Santa Rússia! De resto, os Turcos, com a passividade e a resignação da raça fatalista, aceitam a derrota, que é uma determinação de Alá, e não parecem ter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a confraternização dos soldados russos e turcos: vêem-se, junto às linhas de demarcação, conversando, jogando, cantando, dançando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente telegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos de tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam a passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante, as bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos não parecem protestar: de Istambul vêm todos os dias a San Stefano milhares de curiosos ver os Russos, apertar-lhes a mão, dar-lhes os parabéns de boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla estão encantados com a presença daqueles milhares de consumidores, que duplicarão os preços dos géneros.
A única criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento. Este ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde o começo das negociatas da paz uma inquietação que bem depressa se definiu num ódio asinino contra os Russos. E o burro de um cangalheiro – e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha, firma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer corar o sultão e os paxás. E, dizem os correspondentes, a grande curiosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza o grão-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convencê-lo da nova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia que resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que faz a honra e a força da sua raça, responde com coices aos argumentos. Este jumento ficará na história. É, depois de Osman Paxá, a única alma viril do império. É o último patriota turco!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.