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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthu.r voltou para casa tarde, pesado de genebra. A tia Sabina veio-lhe em pontas de pés ao quarto, fallar ainda na pharmacia. O Vasco dissera-lhe que a cedia barata, @om pagamento a tres mezes. Depois, ellas estavam tão velhas . . . nao tinham mais ninguem no mundo Era necessario um homem na casa

-— Por cousa nenhuma fico aqui vinte e quatro horas mais, tia Sabina . , . .É inutil. Irra I

Sabina desceu a chorar. Parecia-lhe que o menino estava embriagado. deante do leito de Ricardina, já deitada, ia murmurando muito infeliz : — O maldito dinheiro ! O maldito dinheiro !

Ao outro dia, Arthur entrava na loja do Carneiro com a letra, muito inquieto, no receio de que, por vingança, o logista fizesse difficuldades » . . .

— Sei. ao que vem, recebi o aviso — disse seccamente o Carneiro. — Ouro ou notas

Então, n'um reconhecimento, Arthur balbuciou : — Ambas as cousas . , . Eu realmente, snr. Carneiro, tenho a pedir-lhe desculpa foi uma rapaziada

Áquelle cavalheirismo da parte d'um herdeiro, d'um capitalista, o Carneiro enterneceu-se e estendendo-lhe as mãos ambas n'uma effusão :

—O que lá vae, lá vae Nio me fez damno. Os meus parabeng. É gosar ! É gosar !

Fez-lhe recontar as notas, verificou o peso das libras. Á vista d'aquella fortuna alli amontoada, scintillando sobre o balcão, Arthur reprimia uma vontade de rir nervosa, e, quando sahiu, abotoando com amor o casaco sobre o dinheiro, sentiu o mundo a seus pés.

As tias, quando elle estendeu sobre a mesa o dinheiro para lh'O guardarem, ficaram aterradas. O quê ! Pois elle queria levar para Lisboa aquella ri. queza Até lhes parecia peccado, e olhavam o oiro,

o papel, com pavor, pensando que ia ser devorado na Babylonia, como so vissem reluzir nas libras olhos de sereias e nas notas negrejarem programmas de bachanaes. E não o queriam guardar ! Não queriam responsabilidades . . .

— Oh, tia, mas eu não hei-de andar com esso dinheirão na algibeira. O meu bahú tem a fechadura quebrada. Vou até comprar uma mala.

Por fim, ellas cederam, e fecharam o thesouro no gavetão da commoda que servia de altar, no oratorio, pondo-o sob a protecção vigilante dos santos amados.

N'essa noite, por despedida, Arthur ceou com Rabecaz, que tinha preparado uma carta de recommendação para o pandego do Melchior 9.

— O amigo indaga onde elle vive, entrega-lhe a carta, e elle ha-do-o fazer gosar ! Onde conta o famigo hospedar-se

Arthur tencionava ir viver com Damião. Afinal era o unico amigo que tinha em Lisboa. Além d'isso, um Damião, um genio, devia estar relacionado na litteratura, na imprensa . . . e, emfim, elle queria sobretudo viver no meio intellectual . . .

O Rabecaz oscillava a cabeça, desapprovando :

— Ferre-se n'um bom hotel, ferre-se no Universal, no Chiado. Tem as cantoras á mão . . . Bella mesa redonda . . . tudo do fino, tudo do catita. Vó pom o que lhe digo, ferre-se no Universal.

Mas Arthur, nos primeiros tempos, não queria afrontar o laxo desproporcionado d'um hotel no Chiado. Mais tarde, sim, quando tivesse feito fato, roupa branca . . .

— Então, ferre-se no HespanhoZ, na rua da Prata. Tem boa pandega tambem Vá para o Hespanhol.

E até á porta de casa, foi-lhe fazendo recommendações : que visse Cintra, que fosse ao João da Mouraria, para gosar o verdadeiro fadinho que não deixasse d'ir ás hespanholas. E que lhe escrevosse !

Arthur, pesado da ceia, escutava-o vagamente, de mãos nos bolsos, charuto caro nos dentes, e, no fundo escuro da noite, parecia-lhe vêr a sua vida em Lisboa erguer-se, muito alta, como um tropheu muito ornado, onde, de cima abaixo, felicidades vagas e deliciosas scintillassem.

Quando bateu á porta, ficou surprehendido de ouvir uma voz grave que não conhecia, perguntar com desconfiança :

— Quem é

Houve um ruido de trancas, de ferrolho corrido, e o forte portão abriu-se devagar. Um rapazote, de espingarda aperrada, esperava no meio do pateo, e a tia Sabina, de saiote pelos hombros, alumiava do patamar. Com tanto dinheiro em casa, não tinham querido ficar sós. O Vasco approvára, e ti-

nham mandado vir da quinta o moço com a espingarda.

No dia seguinte, a despedida foi triste. Desde manhã, Sabina chorava pela casa. Ricardina, para disfarçar a sua desconsolação, ralhava, muito nervoga, Até o Albuquerquezinho parecia impressionado : toda a manhã passeara pela sala de jantar, de testa franzida, as mios atraz das costas, rosnando :

— Ingrato ingrato ! Mau pirata, mau pirata !



(continua...)

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