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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Os Jacques, tendo bem depressa quebrado o seu pobre armamento, arremessavam-se sobre os pescoços e garupas dos cavalos e derrubavam a braço o cavaleiro que, tombando com um grande ruído de armas, desaparecia, sob os braços armados de facas. Outros, com foices, abriam o ventre aos cavalos. Alguns cavaleiros combatiam a pé, fazendo largos círculos com as espadas: - e as pedras, que os Jacques lhes arremessavam, soavam furiosamente sobre o metal das couraças. Quatro grandes ceifeiros, caminhando a passo como num milharal maduro, iam, com um movimento regular, lançando as suas foices, que apanhavam os jarretes dos cavalos, levavam braços de onde se tinham desprendido as braceiras de ferro, apanhavam pelas gorjas guerreiros sem capacete. E no meio do combate, sem armas, como não querendo derrubar sangue, Cristóvão, esguedelhado, enorme, ia com os seus braços enormes arrancando cavaleiros das selas e atirando-os para o chão como fardos de ferragens. O sangue já lhe escorria, da face, do peito, através do seu saião de couro, retalhado em longas fendas. Os seus imensos brados faziam empinar os cavalos. Lançando mão aos montantes, quebrava-os como palha. As puas e os broquéis que arrancava iam pelos ares, como folhas que uma rajada leva. Por vezes, correndo, com os dois braços e os punhos fechados, mais grossos que cabeças de carneiros, atirava por terra, com um baque seco, os cavalos e os seus cavaleiros. Tendo dado com o pé num montão de cordas, apanhou-o, e quando agarrava algum passava-lhe um nó nas pernas e assim o deixava deitado no chão, como uma rês num mercado. Pouco a pouco, todos os guerreiros se tinham voltado contra ele. E sem armas, tendo apanhado pelos pés um cadáver coberto de armadura, que usava como uma maça, ele ia recuando, até a alta colina coberta de pinheiros. Sobre ele caíam as flechas, sobre ele ressoavam as pedras dos fundeiros. O gigante recuava mais – e subitamente, correndo contra os assaltantes, derribava um,. prostrava outro, com grandes pancadas do cadáver, que já perdera o capacete.O círculo dos cavaleiros crescia todavia sobre ele, gritando-lhe injúrias, arremessando-lhe de longe as maças. E cada vez mais esse círculo era mais estreito, e todo eriçado de ferros que rebrilhavam. Ele, sereno, fazia girar em torno o cadáver, cuja armadura se quebrara pouco a pouco, não tendo mais que os coxotes das pernas por onde o segurava Cristóvão, e mostrando já a carne branca, os cabelos duros do peito. Mas de tanto bater, por fim, foi pouco a pouco perdendo a força da ossatura, tinha o crânio quebrado, os braços moles como trapos, a arca do peito esmigalhada – e aquela arma terrível não era já nas mãos de Cristóvão, mais que uma tira de carne mole. Mas chegara à colina. Aí, em cada pinheiro tinha uma arma. E já se voltara, atirava as mãos a um tronco enorme para o desarraigar, quando uma flecha, varando-lhe o joelho, o abateu um momento, fazendoo escorregar no declive úmido da colina. Então, num instante, um grande corcel negro veio sobre ele, uma lança faiscou – e Cristóvão ficou prostrado, imóvel, com uma espuma de sangue na boca.

Todos se tinham precipitado sobre ele, quando um clamor surgiu por trás. Eram os Jacques que se tinham reunido, e, guiados pelo frade, vinham contra aquele grupo de cavaleiros, entalados contra a colina, nas terras moles onde os pés dos cavalos se enterravam. Então os homens de lança voltaram rédeas, e fugiram entre a colina e os Jacques, de novo diretos à planície, juncada de mortos. Os Jacques bradavam vendo fugir os cavaleiros, e começaram a correr atrás deles, atirando as últimas flechas – arremessando mesmo por escárnios grossos torrões de terra lamacenta. Mas, vendo os peões assim expostos na planície, os cavaleiros deram um volta brusca, e abaterem-se contra os miseráveis. Foi uma grande matança, o frade caíra logo com o crânio aberto, a sua cruz apertada na mão. E os que fugiam eram perseguidos por toda a parte, até que, atirando-se para a lagoa, as grandes lanças por trás os faziam arremessar à água.

Agora, na vasta planície, só havia homens de armas. Os Jacques juncavam a terra em negras poças de sangue. Lentamente, trotando, os cavaleiros acabavam os feridos, que gritavam de sede. Outros, parados, tirando os morriões, limpavam as grosas gotas de suor. Os físicos amarravam os braços feridos. E os pajens passavam com grandes pichéis de vinho. O sol desaparecia, e toda a lagoa era como de ouro, por trás dos seus grandes canaviais negros. Uma revoada de patos passou no céu, já pálido. E ao toque de clarim os Senhores, ainda esparsos, vieram-se juntando, retomando a fila. Os feridos foram postos sobre as carretas. E, a passo, o troço dos cavaleiros retomou o caminho em torno à lagoa, onde o brilho de ouro se apagara, deixando-a agora negra e triste.

Na vasta planície, jazem os Jacques mortos. Findou a grande marcha, que levava aos castelos e abadias a visão estranha das grandes misérias da terra. Nenhum mais voltará às cabanas da aldeia, onde os filhos esperam até tarde na lareira apagada. Os Jacques estão mortos, a terra limpa dos seus andrajos.

Cristóvão jaz estendido na colina, entre os pinheiros. Um vento passa, frio e triste. Ele abre os olhos, e a custo, erguendo-se sobre a mão, olha a planície. E em toda a sua extensão, vê montões de corpos mortos, entre os quais reluzem já os olhos dos lobos. A grande lagoa está imóvel. Por cima passa a lua cheia. Uma dor imensa arrefece o seu coração. De novo os seus olhos se fecharam – e caiu inanimado.



(continua...)

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