Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado. Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O crepúsculo descera sobre os campos - e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas. Afoutado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até o muro da Mãe d'Água. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso: - "Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai aí alguém...? - A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem. Uma rã pinchou num regueiro. Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até o canto do pomar - onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros que o terror enrijara como trancas. Duas tábuas cederam, ele furou através, esgarçando a quinzena num prego. - E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da lua nova que subia.
Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe d'Água! De cinco criados nenhum acudira - e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas - e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha. Dois moços da horta, a filha da Críspola, a Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava - e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:
- Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá embaixo, ao pédo pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Críspola logo se escapulira, encolhida, para a recanto da cozinha, para trás da masseira. Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre "desgraças que assim se armam!" - Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:
- Realmente! sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tivede lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
- Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa efechadura nova... E valente!
- Qual fechadura! - gritou o Fidalgo soberbamente. - Despedacei a fechadura, despedacei atravessa... Tudo em estilhas!
O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
- Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando O queixo enorme:
- Mas que força! a matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!
A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
- Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesma nova, não me falta força. O que eu nãopodia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para outra vez se afoutam, se aparecem...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.