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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

- foi ao campanário da igreja e repenicou o sino. Ao mesmo tempo, o meu vizinho Joaquim do Quinchoso atirou aos astros dois foguetes de lágrimas, que tinha sisado ao mordomo da festa do orago. Na aldeia próxima saiu à rua o Tio Manuel da Bouça com o lombo, e o meu compadre João da Fonte, que fora músico das milícias de Miranda, acordou os ecos das serras com o seu trompão.

O ex-regedor, escorrendo o suor glacial da morte, ergueu-se sobre os joelhos no seu catre, inteiriçou os braços descarnados; e, quando ia morrer nos braços do vigário, comeu uma perna de galinha, e salvou-se.

Mais um argumento da capacidade do estômago para afogar em si as decepções da política!

Como a câmara electiva fosse dissolvida, decretou o poder executivo novas eleições. Deram-se contra mim os pés o vigário e o ex-regedor. A influ6encia do primeiro era temível. Para contrariar-lha nas vésperas do sufrágio, industriei o meu fiel criado a prender a consciência política do padre com o cabresto do garrano do mesmo. O leitor acha dura de entender esta metáfora. Foi assim: o meu criado entrou numa bouça, onde pastava o garrano; tirou-o para o monte; desceu com ele a garganta de duas montanhas, e foi prendê-lo num recôncavo de matagal onde o vigário só pudesse encontrá-lo com tardias informações dalgum pastor desgarrado por aquelas brenhas. Cumpre, porém, dizer, em pró da minha equidade, que o garrano, indigno de ser castigado com o amo, recebia todas as noites porção de feno e bebia do arroio límpido que lhe banhava os pés.

O vigário, azoado com a perda, e tolhido de ir arengar aos paroquianos das aldeias vizinhas, sentiu-se baldo de entusiasmo e patriotismo e deixou o seu correligionário em campo.

Venci as eleições por espantosa maioria. Disse-o o sino a reboar por aquelas quebradas; disseram-no as violas e zabumbas de sete aldeias: o ar incendiou-se de foguetes de três estalos, e eu fiz subir às nuvens um balão, feito de jornais em que eu fora redactor.

O garrano voltou, nesse mesmo dia, à porta do vigário, que o estreitou ao peito em fervoroso amplexo e exclamou: - Fizeste-me perder a eleição; mas para outra vez a ganharemos! Vem, filho pródigo!

III

Dois meses depois recebi o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil.

Seguiu-se a romaria de S. João, e eu levei o hábito. O ex-regedor, quando me viu a cruz e a fitinha escarlate, estava encostado a uma pipa bebendo o seu quartilho e discorrendo acerca do real-d’água e quinto para a amortização das notas, que ele chamava uma ladroeira. De repente, dá de cara comigo. Cai-lhe da mão convulsa o copo, encosta a fronte pálida ao ombro da taverneira, que tinha boas espáduas para suportar aquela esfera de granito, e ia desmaiar, quando, ao chegarem-lhe aos beiços uma caneca de água, ele disse que o mais acertado era chegarem-lhe vinho. E, bebendo, recobrou-se de cores, ganhou o aprumo e, para disfarce, deu um piparote no nariz da moça.

Deixá-lo lá com as suas foscas, o infeliz! Come-lhe as entranhas o rancor político. Um dia virá em que ele, descoroçoado de apanhar a regedoria, veja a Pátria pelos olhos de Bruto e, com b pequeno, se deixe morrer duma fartadela de rojões de porco, sem alguma esperança de renome entre as vítimas do patriotismo. Não!, pobre tolo que tinhas em ti uma alma tal e qual, ceteris paribus, como a dos grandes estadistas, que se hão-de rir de tuas agonias: não, meu émulo desditoso, a posteridade falará de ti, as gerações provindouras lerão nesta página, mais durável que o bronze das estátuas, o teu infortúnio e a minha generosidade. Voere perenius victis!

O hábito de Cristo foi causa a episódios não despiciendos nestas memórias.

No arraial de S. João andava o sargento-mor de Soutelo com sua filha única, Tomásia.

Tomásia era mulher de carne e osso mais que o ordinário. Vestia de amazona: mas ficava um pouco aquém dos limites da elegância, porque era mais larga na cintura que nos ombros - visível defeito do vestido. Tinha uns longes de cara admiráveis: figurava-se-me uma flor de magnólia entre duas rocas de cerejas.

O sargento-mor, que também era cavaleiro de Cristo, desde 1812, pensava desde muito casar Tomásia com cavaleiro da mesma ordem. Conhecia-me ele de nome e formava de mim opinião desvantajosa: não assim a moça que me tinha visto anos antes, numa festa de Endoenças, e gostara de me ver com a opa verde de irmão das almas, funcionando nas cerimónias da igreja.

A casa do sargento-mor rendia quinhentas medidas de centeio, meia pipa de azeite e vinte carros de castanha; sustentava três juntas de bois e quatro irmãos padres.

O leitor ignora, talvez, a jerarquia dum sargento-mor. Pensa que é uma patente destas que enchem a cobiça do coração de uma costureira ou criada de sala, a quem o sargento oferece sua alma e oito vinténs diários de pré?

(continua...)

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