Por Camilo Castelo Branco (1864)
"Eis aqui a resposta da alma bem-aventurada; eis aqui as indiscretas respostas da Providência.
"Entendi que soara para mim a hora da expiação, anunciada pela visão do marido, cortado de angústias, superiores à minha. Faziam-se aceleradas transformações em meu ânimo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a ocultas de minha casa e esconder da infame e do mundo a explicação da minha fuga.
Acudia-me logo outra ideia, argumentando contra a miséria daquela. Lembrou-me propor a Teodora a separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos disparatados ou irrisórios se atropelaram na minha pobre cabeça. "Serei eu um cobarde?", perguntava eu logo à minha consciência. Vinha então outra vez Eleutério postar-se ante mim e dizer à mulher, que o fitava com desprezo: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"
"Desligado da menor premeditação, assaltou-me de repente uma ideia, cujo alcance e desfecho eu não me curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmira, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me à sala. Ao sair da porta do meu quarto, vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia ali. "Estou de plantão", respondeu ele.Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido e continuou: "Como dei fé que o patrão se deitou, não quis deixar o negócio ao deus-dará: é o que foi". "Entrei na sala a passo mesurado, e quase a súbitas. Estava D. José ao lado de Palmira na mesma otomana. D. António folheava as Mulheres, de Walter Scott. Palmira estremeceu ao ver-me assomar debaixo do reposteiro. D. José, embrutecido pela surpresa, não se moveu dá posição denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca ele se sentara a par de Palmira no mesmo estofo. Voltando a si da estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse: "Não se incomode, Sr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos em minha casa são os donos dela.".
"Essas maneiras esquisitas, Afonso...", tartamudeou D. José, enquanto Palmira,perplexa ainda, manifestava sua dúvida no abrimento da boca e esgazeado das faces.
"Não respondi à banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. António e disse-lhe: "O Sr. Mascarenhas é de mais aqui. Se for propícia a ocasião ele sairá a tempo - diz a carta do nosso amigo D. José. V. Exª devera já ter saldo."
"Relanceei de revés um olhar a Palmira. Vi-a sobressaltada e lívida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sofá. D. José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. António encarava-me com ares de pavor. Eu continuei: "A figura do Sr. Mascarenhas neste quadro é de mais. Queira sair."
"Eu vou com D. António", disse o Noronha. "Ele que o espere na rua", respondi, voltando levemente a cabeça sem o encarar.
"D. António tomou o chapéu com presteza, baixou a cabeça a Palmira e saiu, cortejando-me.
"A mulher da estalagem de Barcelinhos voltou ao corpo de Teodora. Ei-la em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.”
"Que significa isto?", exclamou ela. "Acabemos esta situação sem grandes cenas!
Que vem dizer-me o Sr. Afonso?"
"Confessarei que me senti pequeno diante deste cínico interrogatório! Que havia eu de responder à mulher que rebatera com escárnio e arrogância as moderadas agressões do marido? Com que direitos ia eu ali, desonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ela, que estava perdida? E a infâmia era comum de ambos, porque ambos éramos criminosos. Que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna daquelas perguntas? Somente assim posso agora dar-me conta da minha mudez de então.
"E ela, acoroçoada pelo meu espantado silêncio, prosseguiu: "Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, Sr. Afonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palácio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servidão, enquanto o Sr. Afonso, enlevado nos ideais amores de uma prima...
"Infame", atalhei eu. "Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procureas, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não caída na última abjecção, impõe respeito à amante de D. José de Noronha, hospedada em casa de Afonso de Teive."
"Bem!", exclamou ela. "A amante de D. José de Noronha agradece a hospedagem, promete mesmo pagá-la da altura da sua independência e vai sair, impondo silêncio ao insultador."
"Pois saia" tornei eu, "mas leve consigo o esterco com que sujou a minha casa!" E, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.