Por Coelho Neto (1890)
Ruy Vaz, que não desestimava o presidente, conhecendo-o do Norte, defendeu-o, aceitando parte da responsabilidade:
— Eu devia prever tudo quanto se tem dado porque conheço Crebillon. É um sonhador, meus amigos: tem a alma de D. Quixote. No Norte a sua fama é grande, todos lhe conhecem a história, que tem lances heróicos, porque esse visionário possui um coração excelente. Foi rico, herdou terras pingues de cereal e pasto. Com elas recebeu escravos, mas não querendo desmentir a tradição de humanitário, que o seu procedimento anterior havia criado, porque, antes que aqui surgissem abolicionistas, já Crebillon andava em jangadas desviando negros para o Ceará e escrevia nos jornais contra os "senhores", que o tinham como demagogo e várias vezes assalariaram capangas, que ele teve de repelir a tiro e à faca, libertou todos os negros certo de que, depois de tão espontânea generosidade, eles não o abandonariam.
Enganou-se. Em menos de um mês, não tinha em casa uma crioula que lhe fizesse o jantar, sendo forçado a tomar camaradas para que as terras não fossem invadidas pelo mato daninho e os rebanhos não aberrassem à falta de pastor. Depois, com idéias de beneficiar as terras, vendeu todo o gado e comprou maquinismos complicados, que ficaram ganhando ferrugem ao tempo por não haver quem os montasse, porque o dinheiro era escasso.
Desesperado, então, vendeu o sítio com tudo que nele havia e, abotoandose com o dinheiro, desceu à capital, onde fez correr o anúncio de um jornal tremendo, que seria redigido por ele e por outros parciais das suas idéias, jornal republicano, abolicionista, anticlerical e nativista, com o retumbante título de A Bomba.
Vinte números estouraram escandalosamente na capital. Uma noite, porém, sujeitos armados e mascarados, justamente quando as páginas desciam para o prelo, invadiram as oficinas afugentando os poucos homens que nelas havia e, derramando petróleo, lançaram fogo a tudo.
Na manhã seguinte, do escritório e oficinas de A Bomba, só havia cinzas e chumbo derretido; a mesma máquina estava desconjuntada e inútil. E Crebillon, quando chegou à sua tenda de trabalho, lançando os olhos pelas vigas carbonizadas, trepou ao balcão, que ainda fumegava e, heróico, sublime com a pêra relampejando, anunciou à multidão que A Bomba, como a Fênix da fábula, havia de renascer das cinzas. Efetivamente, três dias depois, explodia de novo o terrível jornal, saindo de um escritório, que o resistente panfletário guarnecera belicosamente como uma praça de guerra.
No artigo com que ressurgiu enumerou os apetrechos que armazenara. A lista enchia meia coluna larga e desentrelinhada, e continha de tudo, desde o montante pesado até o cartucho de dinamite; desde a lança até o cacetete e havia um pequeno canhão com que ele contava arrasar a cidade, se a farândola tornasse a ameaçá-lo no seu reduto.
— A polícia, que não podia permitir esse arsenal, porque o alarmando a população, ia provocando um êxodo, intimou-o a entregar as armas. Crebillon resistiu e a autoridade teve de invadir o escritório, onde apenas encontrou, fechado numa gaveta, um velho revólver e, resmungando a um canto, com o cachimbo nos beiços, um negro cambaio que era o virador do prelo. Crebillon sofreu um golpe rude quando soube que a polícia lhe havia varejado a casa antes que ele houvesse transportado para o escritório as velhas armas que adquirira.
A notícia do encontro do revólver e do preto velho foi ironicamente comentada pela imprensa conservadora e pelo povo e Crebillon, sem a lenda, sentiu-se desanimado para prosseguir na sua campanha regeneradora. Reunindo, então, a fortuna começou a percorrer os sertões do Brasil.
Subiu o Amazonas, penetrando, com a sua carabina e seis índios do Madeira, selvas nunca trilhadas pelo homem civilizado e descendo, ora por mar, ora em ubás, pelos rios largos, chegou ao Rio de Janeiro de onde seguiu para o Sul, atravessando a região fria e desabrigada do minuano.
Lá teve amores e lutas, abalou com uma senhora que lhe anelava o cavanhaque e tocava Schubert em cítara e perdeu-a no Paraguai, de febre. Ainda conserva o retrato e um dente dessa criatura formosa que se chamava Diana. Desgostoso, pensou em fazer-se monge, mas a idéia de raspar o viçoso e flamejante cavanhaque, que ele chama a sua "estalagmite", fez com que, em tempo, recuasse do claustro e começou a negociar em tudo. Foi a sua última loucura porque, em pouco tempo, ficou reduzido, sendo obrigado a viver de escritas comerciais, com uma miserável retribuição que não lhe dava para ostentações, obrigando-o a andar retraído, equilibrando a despesa, sem amores, sem aventuras, sem carabinas, sem cães.
É um sonhador. Estou certo de que, se tivesse alguma coisa, não se limitaria a trazer o que inventariou no seu programa, mas muito mais. Infelizmente, porém, está esgotado, sem vintém. Passa fome conosco, mas sempre a arrotar grandezas.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.